Relato completo de nossa viagem pela Coreia do Norte

Tem curiosidade em saber como é um tour pela Coreia do Norte? Aqui contamos como foi nossa viagem de 5 dias por lá!

Neste post vou focar em descrever como foi nossa viagem. Se quiser saber informações sobre a segurança do país, que dinheiro levar, o que pode e o que não pode fazer, se pode filmar ou não, leia este outro post:

Por que tour?

Para visitar a Coreia do Norte é preciso arranjar um tour por alguma agência. Não dá para simplesmente ir por conta própria. Esses tours partem da China, e a viagem até a Coreia pode ser feita de avião ou de trem.

Nós contratamos uma excursão de 5 dias/4 noites com a Young Pioneer Tours, uma agência bastante confiável e que oferece os passeios mais em conta. É o mais perto de “mochilar” que você vai conseguir.

Quanto custa?

Os preços ficam na faixa dos 200-250 euros por dia, diminuindo gradativamente para tours mais longos. Nosso tour foi o do Dia das Crianças (que acontece no dia 1° de Junho). Custou 850 euros, mais 50 euros de visto. O tour partiu de Pequim e incluiu os transportes, as hospedagens, as entradas e todas as refeições na Coreia do Norte. As únicas coisas que não estavam incluídas eram a refeição no trem (tanto na ida quanto na volta), a entrada para um circo (opcional, 20 euros) e a subida em uma torre (opcional, 5 euros), as gorjetas e as lembrancinhas.

Além da capital, visitamos também duas outras cidades: Kaesong e Sariwon.

É possível trocar os transportes de trem por avião, pagando uma diferença. Nós conseguimos um desconto de 25 euros cada um porque, em vez de voltarmos para Pequim, ficamos na cidade fronteiriça (Dandong).

Viajando de trem na China
Viajando de trens noturnos na China

O que levar?

Recomendamos levar bastante água e lanches (bolachas, chocolates, etc) caso queira economizar, senão você terá que comprar esses itens no hotel, o que sai um pouco mais caro (embora não seja absurdo).

Caso não queira gastar com comida no trem, a dica é levar pacotes de noodles (nos trens há água quente grátis).

Hotéis

Os hotéis da Coreia do Norte são bons. Nós ficamos em dois: o Chongnyon e o Sosan. No Chongnyon o quarto era com ventilador, e no Sosan tinha ar condicionado (embora preferimos o ventilador, pois o ar era bem fraquinho).

Os quartos são com duas camas, então você irá dividi-lo com alguém caso esteja viajando sozinho (ou pagar 40 euros a mais para ficar sozinho). Se estiver viajando com mais uma pessoa, vão ter o quarto só para vocês.

Quarto do hotel Sosan na Coreia do Norte
Quarto do hotel Sosan onde nos hospedamos

Um dia antes…

Nós entramos na Coreia do Norte no dia 30 de maio, e dormimos 4 noites lá. Mas, de certa forma, nosso tour começou no dia 29.

Encontramos com nosso guia (Nic, canadense) e os outros turistas em um hotel perto da estação de trens de Pequim. Ali recebemos nossos vistos (a agência mesmo se encarrega de fazê-los) e o guia nos tirou algumas dúvidas. A conversa foi basicamente para nos acalmar, já que muitos estavam um tanto apreensivos por visitar um país tão exótico. Ficamos felizes em estar viajando em um grupo bastante pequeno (éramos 8 ao total).

Vistos Coreia do Norte
Nossos vistos

Terminada a reunião, fomos caminhando até a estação de trens, onde pegamos um trem noturno até a cidade da fronteira. A viagem foi em camas, mas mal conseguimos dormir por conta da ansiedade (e, se você não é ansioso, recomendamos levar tapões para os ouvidos).

Quem não quis pegar o trem passou mais uma noite em Pequim para pegar o voo no dia seguinte.

Saindo da China

Dia 30 de Maio, 7h da manhã. Depois de 14 horas de trem, chegamos a Dandong, a cidade chinesa que faz fronteira com a Coreia do Norte. Ali o Nic nos deu 1h livre para que fôssemos tomar café da manhã, mas nós decidimos aproveitar o tempo para dar uma olhada na Coreia do Norte. Caminhamos cerca de 10 minutos e chegamos a um rio, onde havia uma ponte de ferro que havia sido destruída pelos EUA durante a Guerra das Coreias. Ao lado desta ponte havia uma nova, que será a que cruzaremos daqui a pouco. E, na outra margem do rio, podíamos ver a Coreia do Norte!

Ponte China - Coreia do Norte
À esquerda, ponte que liga os dois países. À direita, ponte antiga que foi bombardeada pelos EUA

Voltamos para a estação de trens e seguimos para a fila de imigração. Foi demorado, pois havia bem mais turistas do que imaginávamos (a grande maioria chineses). Também percebemos que havia vários norte-coreanos viajando. Pensávamos que eles não podiam sair do país de jeito nenhum, mas descobrimos que muitos deles iam e voltavam da China com frequência. Em Dandong, inclusive, há muitos norte-coreanos trabalhando.

Carimbamos nossa saída da China e pegamos o trem, que partiu às 10h. Neste trem também viajamos em camas.

Cruzamos a ponte e logo chegamos à imigração da Coreia do Norte, onde ficamos parados por 2 horas.

A imigração

Lemos tanta besteira na Internet que ficamos bem preocupados com a imigração. Mas foi bem tranquila. Alguns oficiais entraram no vagão, pediram nossos passaportes e vistos, pediram para ver as câmeras, os computadores, os tablets e os celulares. E, quando digo que “pediram para ver”, era apenas para que mostrássemos quantos desses itens levávamos. Com exceção das câmeras profissionais, não tivemos que ligar nenhum. Quanto às câmeras, deram uma rápida navegada pelos menus e logo devolveram.

Imigração da Coreia do Norte
A imigração é feita no próprio trem

Depois pediram para ver as malas. Escolheram algumas aleatoriamente e pediram para abrir. No caso da nossa, apenas abrimos o zíper e o guarda já disse: “ok, ok”, e fez sinal para guardarmos de volta.

Terminada a inspeção, pudemos sair do trem para aguardar lá fora enquanto terminavam os procedimentos de imigração. Aqui você já pode tirar suas primeiras fotos em território norte-coreano, e até provar uma cerveja nacional.

Viajando até a capital

Só esta viagem de trem já vale todo o investimento. Tudo o que vimos pela janela era tão impressionante e, ao mesmo tempo, tão normal!

O caminho é todo acompanhado por imensas plantações de arroz, e ao fundo víamos várias cidades rurais, construídas aos moldes comunistas. Nas ruas (geralmente de terra) se via um movimento grande de bicicletas e pessoas a pé, mas quase nenhum carro ou moto. É tão estranho ver um país asiático sem ter trocentas motos pelas ruas.

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O povo do campo era bastante humilde, mas pareciam simpáticos. Alguns até paravam o serviço para dar tchau para nós. Uma pena que não pudemos visitar nenhuma dessas cidades!

Por fim, cerca de 5 horas depois, chegamos à capital do país: Pyongyang. Chegamos pouco antes das 18h, e nos demos conta que já havia passado 24h desde que saímos de Pequim. Podem imaginar o quanto estávamos cansados.

Nossos guias coreanos vieram nos receber no trem, e já nos contaram um pouquinho sobre o país e o que veríamos nos dias seguintes. Eles falavam inglês perfeito.

Fomos de ônibus até nosso hotel, e olhando pela janela já sentimos um gostinho da cidade. Tudo impressionava: os pontos de ônibus, os prédios, as barraquinhas de rua, as pessoas em bicicleta. São poucos os países onde você ainda se impressiona com essas coisas.

Coreia do Norte
Estação de trens de Pyongyang

De um modo geral, Pyongyang é uma cidade bem normal. As ruas amplas e as construções espaçadas lembram um pouco de Brasília. A diferença é que há bem poucos carros na rua. Por conta dos embargos, trazer um veículo para o país é bem difícil (e caro). Portanto, os poucos que se veem ou são de estrangeiros que vivem na Coreia do Norte, ou táxis, ou de pessoas que receberam um carro do governo (seja por serem altos funcionários ou que conseguiram justificar a necessidade de um).

Chegamos ao hotel Chongnyon que, contrariando as expectativas, estava bem cheio. Parece que a Coreia do Norte já não é um destino tão exótico assim.

O hotel tem lojas, restaurantes, bares e uma piscina (que se paga à parte). O quarto tinha ventilador, TV, geladeira e água quente. Só não tem wi-fi, obviamente.

Ligamos a TV para ter uma ideia do que os norte-coreanos podiam assistir, mas, para nossa decepção, só havia canais chineses.

Pyongyang - Coreia do Norte
Amplas avenidas e poucos carros – assim é Pyongyang

Jantamos no hotel. O modo de servir deles era bastante curioso: iam trazendo mais e mais pratos, sem um sentido exato (ovos, depois salada, depois carne de pato, depois salada, depois mais carne de pato, depois mais ovos…), e curiosamente terminaram com uma porção de arroz. A cerveja estava incluída (e era muito boa).

Terminada a janta, voltamos para o quarto. Tínhamos uma vista muito bonita da cidade, e notamos algo interessante: às 22h as luzes públicas se apagaram, tanto das ruas quanto das fachadas dos prédios do governo. Mas o movimento de carros e ônibus continuou até tarde.

Primeiro dia de passeio

Tomamos café no hotel e saímos para conhecer a cidade. Aqui estão os lugares que visitamos:

  • Biblioteca pública

A biblioteca pública de Pyongyang é um edifício enorme, com uma arquitetura pitoresca e localizado ao lado de uma bela praça. Fica bem no centro, e da parte superior da biblioteca se tem uma vista muito interessante.

O passeio dentro da biblioteca é todo acompanhado por guias, então fica difícil dizer com certeza o que é verdade e o que não é. Havia uma boa quantidade de pessoas estudando no interior, o que parecia realmente autêntico. Porém fomos apresentados a livros ocidentais, como Harry Potter, Shakespeare, Mark Twain e uns guias de viagens. Estes livros estavam convenientemente nos “esperando” em um balcão por onde passamos. Difícil saber se está acessível a todos ou somente aos turistas.

Coreia do Norte - Biblioteca
Biblioteca pública de Pyongyang

Entramos em uma sala onde havia livros técnicos (a maioria escritos em chinês) e em outra onde havia equipamentos de músicas para estudantes desta arte. Disseram que ali havia músicas nacionais e internacionais, embora só vimos as nacionais.

No banheiro da biblioteca era possível ver um pouco da fragilidade estrutural do país. Apesar de o prédio ser bonito e bem cuidado, não havia água corrente, apenas um tanque onde você podia lavar as mãos ou pegar água usando um balde para jogar na privada.

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  • Estátua dos líderes

Este é um dos destinos mais clássicos do país: onde estão as estátuas de Kim Il-sung (fundador da pátria e avô do atual ditador) e de seu filho, Kim Jong-Il. É opcional comprar flores para deixar aos pés das estátuas (tinha opções de 20 ou 40 yuan – 12 e 24 reais, respectivamente).

Estas estátuas são bem grandes, muito maiores do que imaginávamos. Ao lado delas estão monumentos representando a luta do povo.

Coreia do Norte
Estátuas famosas dos líderes

Este é um local de respeito, e exigem calças compridas e calçados fechados. Também não é permitido tirar fotos fazendo gracinha, como imitando as poses das estátuas, por exemplo.

  • Loja de lembrancinhas

Paramos em uma papelaria onde era possível comprar lembranças, como postais, selos, livros e jornais. O legal daqui é que fizemos uma pequena caminhada pelo centro.

Os preços não são baratos, mas é uma das poucas oportunidades que você terá de comprar uma lembrança da Coreia do Norte. Para ter uma ideia, um jornal (que é composto basicamente por uma folha) custava o equivalente a uns 7 reais. Havia a opção de comprá-lo em inglês ou em coreano. Difícil saber se estes jornais eram os mesmos que estavam disponíveis para a população.

Coreia do Norte
Loja de lembrancinhas
  • Juche tower

Esta é uma torre de onde se tem uma vista panorâmica de Pyongyang. A entrada é cobrada separado (5 euros), mas vale a pena subir. De lá de cima dá para ter uma boa noção de como é a capital deste país.

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  • Monumento ao Partido

Este é outro destino famoso na cidade: um monumento dedicado ao partido comunista. Nele se veem três mãos: duas segurando as ferramentas símbolo do sistema (a foice e o martelo, representando o trabalhador rural e o operário) e outra segurando um pincel, que representa o homem intelectual.

Pyongyang - Coreia do Norte
Mucuvinha em frente ao monumento
  • Metrô

É impressionante como um passeio de metrô pode ser tão interessante. Mas esta talvez seja a única oportunidade que você tenha de utilizar um transporte público no país.

O metrô de Pyongyang é o mais profundo do mundo. Foi feito desta forma para servir também de abrigo para a população no caso de um bombardeio. As estações são bem bonitas, feitas no estilo clássico russo, e os trens são bem velhos. Aqui você tem uma ideia melhor de como é o dia a dia dos coreanos: vai ver crianças indo para a escola, trabalhadores voltando do trabalho, gente indo passear, essas coisas.

Pyongyang - Coreia do Norte
Com algumas crianças no metrô

Nas estações do metrô há jornais pregados para a população ler. Infelizmente, como não compramos o jornal na loja de lembrancinhas, não pudemos comparar se o que está escrito é o mesmo que vendem para nós.

Os tickets de metrô já estão incluídos no passeio. A população local precisa pagar 5 won (que equivale a 2 centavos de real).

  • Arco do Triunfo

Saímos do metrô em uma estação onde há um enorme arco do triunfo, supostamente o maior do mundo. Este arco lembra bastante o de Paris .

Coreia do Norte
Arco do triunfo norte-coreano
  • Museu da guerra

Este é um museu onde contam um pouco da história da Guerra da Coreia (contada na versão norte-coreana) e apresentam alguns veículos americanos que foram capturados. O grande destaque aqui é o USS Pueblo, o único navio de guerra americano capturado e mantido por outro país. Este era um navio espião, e está muito bem conservado.

Coreia do Norte - USS Pueblo
USS Pueblo – o navio espião americano capturado

Dentro do museu não era permitido fotografar e nem filmar (o que é uma pena, pois o edifício é impressionante). O passeio foi guiado por uma militar, e ela conta como os Estados Unidos começaram a guerra e como a Coreia do Norte saiu vitoriosa do conflito.

Abro um pequeno parêntesis aqui: oficialmente, a história que se conta é que a guerra começou porque a Coreia do Norte tentou invadir a Coreia do Sul. E também não houve vencedores: morreu um monte de gente dos dois lados e a fronteira basicamente permaneceu no mesmo lugar. Os únicos vencedores desta guerra foram as empresas que venderam armas.

  • Boliche

Por fim visitamos um boliche, onde supostamente você pode ter um contato maior com a população local e vê-los em um momento de entretenimento com seus amigos e familiares.

Há alguns detalhes estranhos aqui. Primeiro é que ninguém ficava surpreso em nos ver (ver um bando de estrangeiros ocidentais juntos chama a atenção em qualquer lugar da Ásia). Segundo é que havia bastante gente jogando durante o horário de trabalho, em um dia da semana qualquer. Terceiro é que praticamente todo mundo ali jogava muito bem. Seria realmente uma atividade corriqueira, ou tudo não passava de uma armação? Quem sabe.

Pyongyang - Coreia do Norte
No boliche

Era opcional jogar uma partida. O preço da pista era na faixa dos 20 euros.

  • Bairro moderno

Finalizamos o dia jantando em um bairro moderno da cidade. Se, até então, Pyongyang parecia uma cidade fantasma, aqui você muda completamente esta ideia. Já era fim de tarde, e as ruas estavam lotadas de pessoas passeando e crianças brincando nos parques.

Os edifícios deste bairro têm uma arquitetura muito bonita. Lemos em alguns jornais ocidentais que este bairro todo era só fachada, que ninguém morava nestes prédios. Mas percebemos que, na maioria deles, havia sim vida. Havia roupas no varal, plantas nas sacadas, e essas coisas. Porém, alguns poucos prédios realmente pareceram estar vazios. Acreditamos que eles foram inaugurados antes de estarem 100% finalizados, e que estão aos poucos colocando as pessoas para viverem ali.

Pyongyang - Coreia do Norte
Bairro moderno de Pyongyang

Segundo dia – o dia das crianças

Este foi o 1° de Junho, a data em que eles comemoram o Dia das Crianças.

Neste dia deu um problema na rede elétrica do nosso hotel, e acabaram nos trocando para outro melhor. Fizemos a troca no meio da tarde, em um intervalo entre os passeios.

O que visitamos neste dia foi:

  • Dia das crianças

O dia começou com o passeio que julgamos o mais bacana de todo o tour: o evento de dia das crianças. Fomos a um parque um tanto distante do centro, onde havia uma multidão de crianças, professores e pais realizando apresentações, danças e jogos de gincana. Eram todas crianças da pré-escola.

Neste local ficamos livres dos nossos guias por 2 horas. Pudemos andar por onde quiséssemos e conversar com quem quiséssemos. Uma pena que não sabemos falar coreano, pois teríamos aprendido muito conversando com essas pessoas. Tanto as crianças quanto os adultos nos olhavam com curiosidade e, apesar de tímidos, eram simpáticos. No meio da criançada vimos algumas crianças de outros países realizando também as atividades: eram os filhos dos estrangeiros que vivem na Coreia do Norte.

Coreia do Norte
Celebração do dia das crianças

Logo ao lado desta parte onde se realizavam as apresentações havia um parque de diversões lotado de gente. Pena que essas 2 horas passaram tão rápido…

  • Estande de tiro

A segunda parada foi em um estande para praticar tiro ao alvo. Cada bala custava 1 dólar, e o pacote mínimo que você podia comprar era de 10 balas. Como apenas um do nosso grupo quis brincar, a visita acabou sendo rápida.

Coreia do Norte
Estande de tiros
  • Supermercado e loja de departamentos

Este é outro passeio que é, ao mesmo tempo, extremamente comum e extremamente interessante. Basicamente visitamos uma loja de departamentos de três andares, com um supermercado no térreo, uma loja de roupas no segundo andar e uma praça de alimentação no terceiro. Nada demais, exceto pelo detalhe de estarmos na Coreia do Norte.

Aqui há uma casa de câmbio, onde você pode trocar seus dólares, euros ou yuan por won (dinheiro norte-coreano). É talvez a única oportunidade que você tenha de conseguir essas notas.

Dinheiro da Coreia do Norte
Won – dinheiro norte-coreano

Fizemos algumas compras básicas no supermercado. Era um supermercado pequeno, mas encontramos mais produtos do que imaginávamos encontrar. Havia muitas marcas ocidentais lá que conseguiam furar o bloqueio, como cervejas europeias, produtos de limpeza iguais aos que vemos no Brasil e refrigerantes como Fanta e Sprite (Coca-Cola não havia). Os preços são normais, talvez em geral um pouco mais baratos do que no Brasil.

O terceiro andar foi o mais interessante, e estava lotado. Aqui, sim, as pessoas nos olhavam curiosas, e algumas até tentavam puxar papo. O interessante é que vimos que elas comiam pratos similares aos que comemos durante nossa visita (falarei sobre as refeições no final).

Shopping em Pyongyang
Foto que tiramos na praça de alimentação com uma câmera escondida

Aqui também é possível provar um excelente chope que custa apenas 2 mil won a caneca (algo como 1 real). Só é preciso enfrentar uma longa fila até lá, e lutar com o povo que tenta se enfiar na sua frente.

Não era permitido fotografar ou filmar neste lugar.

  • Museu da arte

Um museu onde é possível ver um pouco da arte norte-coreana, como quadros e vasos. Interessante para quem entende do assunto.

Coreia do Norte
Um pouco da arte norte-coreana
  • Escola

Este foi um passeio do qual tínhamos grandes expectativas, mas acabamos saindo um tanto decepcionados. Teoricamente visitaríamos uma escola, onde poderíamos ver as crianças realizando algumas apresentações extracurriculares. Esperávamos ver algo feito para seus pais, mas eram apresentações feitas exclusivamente para turistas. Umas meninas cantavam em um auditório para um grupo de turistas, então este grupo saía, entrava outro, e elas faziam a mesma apresentação. A apresentação era bonita e as meninas cantavam muito bem, mas ficamos um pouco sem jeito pelo fato de terem que fazer aquilo única a exclusivamente para nós.

Coreia do Norte - apresentação na escola
Apresentação na escola
  • Circo

Opcionalmente poderíamos ver uma apresentação de circo. A entrada era de 20 euros por pessoa. Disseram que o circo foi armado para o Dia das Crianças, mas infelizmente a maioria absoluta das pessoas que entraram lá era composta por estrangeiros.

Nós não nos interessamos pelo circo, então nos levaram a um café que havia ali do lado (um café criado para receber estrangeiros, e que vendia cafés extremamente caros). Não consumimos nada, mas foi interessante porque tivemos uma conversa corriqueira com nossa guia. Descobrimos que ela conheceu seu marido usando um serviço de encontros que é muito comum no país (algo parecido com o que tínhamos no Brasil há alguns anos). Explicamos que, no ocidente, essa prática também é comum, mas agora feita através de um aplicativo chamado Tinder. Ela ficou bastante curiosa em saber como funcionava. Infelizmente não tínhamos nem Tinder nem internet para mostrar.

O pessoal que visitou o circo disse que a apresentação foi interessante. Nada de outro mundo, mas interessante.

Terceiro dia – DMZ

Neste dia saímos bem cedo – por volta das 6h30min da manhã. E, se seu guia recomendar saírem cedo, saiam. Façam o possível para chegar à DMZ antes das excursões de chineses, senão vão passar muita raiva.

  • DMZ

DMZ, ou “zona desmilitarizada” é uma zona extremamente militarizada na fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Ok, então por que se chama “desmilitarizada”?

Logo após a guerra, uma trégua entre os dois países foi assinada (embora oficialmente a guerra não tenha acabado), e criaram esta zona, que se estende por dois quilômetros para dentro de cada um dos países, a partir da fronteira. Nesta zona é proibido ter armamentos pesados. A ideia era evitar uma provocação direta entre os dois lados. E aparentemente deu certo.

A viagem até a DMZ leva cerca de 3 horas, e no caminho você pode ir vendo um pouco mais de como é a vida no campo. Chegando lá, alguns militares entraram no ônibus e nos acompanharam até a fronteira. Mas, apesar de parecer algo tenso, foi bem tranquilo. Nosso militar era bem simpático (ainda que não falasse nada de inglês) e, apesar de termos chegado cedo, já havia uma certa quantidade de chineses fazendo bagunça.

Estrada Pyongyang - DMZ - Coreia do Norte
Estrada para a DMZ – movimento quase nulo

Visitamos a casa onde a trégua foi assinada, e depois nos dirigimos até a fronteira. Foi um privilégio estar ali, pois a Coreia do Sul havia recentemente proibido os passeios por seu lado. Ou seja: para ver a fronteira, só pelo lado da Coreia do Norte.

Bem sobre a linha das fronteiras havia casinhas. Como metade delas ficava em um país, e a outra metade do outro, aquele era um local perfeito para que autoridades do Norte e do Sul pudessem se reunir, sem cruzar a fronteira. Pena que não dá para entrar lá.

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  • Kaesong

Kaesong é uma cidade humilde, localizada próxima à fronteira. Foi aqui que almoçamos. Era opcional comprar carne de cachorro (5 euros a porção) ou um frango (20 euros o frango inteiro). Vá preparado, pois se não comprar nenhum extra vai sair de lá com fome.

Em Kaesong visitamos um museu que conta um pouco da história do antigo reino de Koryo, que deu origem às coreias. Este museu servia antes como uma escola de confucionismo, e hoje é considerado um Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Bem interessante para ver como era a vida do povo coreano antes da divisão entre Norte e Sul. Aqui você pode enviar um cartão postal para casa, por apenas 10 yuan (algo como 6 reais).

Aproveitamos para fazer uma caminhada até o topo de um cerro, de onde se tinha uma vista bem interessante da cidade.

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  • Sariwon

Esta é outra cidade que visitamos no caminho de volta para Pyongyang. É uma cidade pequena, onde o povo vive basicamente de atividades rurais. Outra visita bonita, onde o povo simples nos olhava com curiosidade. Alguns até tentavam conversar conosco, mas infelizmente não entendíamos nada.

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Subimos até um mirante e pudemos provar um vinho feito com arroz, típico do lugar.

  • Monumento à reunificação

Na chegada a Pyongyang fizemos uma rápida parada no monumento que foi erguido em homenagem à reunificação das duas coreias, reunificação esta que, infelizmente, nunca aconteceu.

Monumento da reunificação - Coreia do Norte
Monumento da reunificação, representando uma mulher de cada uma das coreias

Último dia – indo embora

Depois de nossa quarta noite no país, era hora de ir embora. Nosso grupo se separou entre aqueles que iam de avião (saíram às 7h) e os que voltariam de trem.

Pegamos o ônibus às 9h30min e fomos para o terminal de trens, onde nos despedimos de nossos guias e voltamos sozinhos para a China. Dividimos o camarote com alguns norte-coreanos que trabalhavam no país vizinho, e tivemos a oportunidade de conversar um pouco com eles.

A saída do país foi mais tranquila do que a entrada. Estávamos com medo que mandassem apagar nossas fotos ou nossos vídeos, portanto escondemos tudo em umas pastas ocultas no computador. Mas eles não pediram para ver nada. Apenas perguntaram se tínhamos dinheiro coreano, pois era supostamente ilegal sair com eles do país. Dissemos que não e ficou por isso mesmo (ainda bem que não quiseram nos revistar, pois havíamos guardado uma nota como souvenir).

Chegamos à China no fim da tarde, e a imigração aqui exigiu uma boa dose de paciência. Os chineses iam em uma fila à parte, mas nós dividíamos a fila com os norte-coreanos, e portanto era muita gente. Mas, depois de muito esperar, estávamos na China.

O normal aqui seria já pegar o trem de volta para Pequim, mas nós ficamos em Dandong por uns dias para conhecer o final da Muralha da China. Mas isso fica para outro post.

E as comidas?

Não lembro a ordem do que comemos na Coreia do Norte, mas provamos vários pratos típicos do país. Infelizmente os locais onde comíamos pareciam ser exclusivos para turistas, mas pelo menos a comida era autêntica (percebemos isso porque vimos os coreanos almoçando na loja de departamentos).

Alguns destaques foram: o hot pot, onde você prepara a sua própria comida em uma panela com água fervente que colocam na mesa. Já havíamos comido hot pot em outros países, e este nos deixou um pouco decepcionados. Talvez não soubemos usar os temperos, sei lá.

Outro prato famoso é o noodles frio. E é frio mesmo, de se deixar na geladeira. Estes noodles são bem longos, e costumam ser oferecidos em casamentos ou para amigos. A metáfora aqui é que o casamento (ou a amizade) seja tão longa quanto os fios daquele noodles.

Noodles frio - Coreia do Norte
O famoso noodles frio, prato típico da Coreia do Norte

Outro prato que mereceu destaque foi uma espécie de churrasco de pato. Bem gostoso.

Em geral a comida era bastante servida, boa e acompanhada por cerveja ou por saquê. Se você não bebe ou não come carne, é possível pedir opções vegetarianas ou trocar o álcool por sucos. Apenas no último dia (quando teve a carne de cachorro opcional e o churrasco de pato) é que saímos com fome. Por sorte tínhamos uma boa quantidade de chocolates chineses para ajudar a encher.

 

É isso, pessoal! Este foi nosso relato completo sobre nossa visita à Coreia do Norte. Tentei resumir ao máximo, mas ainda assim parece que ficou bastante extenso. Se você chegou até aqui, ficamos bem gratos pela paciência! 🙂

Se quiser conhecer mais sobre o país, dê uma olhada no nosso canal do YouTube. Subimos vários vídeos para lá:

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11 comentários sobre “Relato completo de nossa viagem pela Coreia do Norte

  1. Fiquei sem fôlego com tanta informação! Parabéns.
    Foi a primeira matéria que leio sem puxação de saco pra nenhum dos lados, aqui você expôs, e com base, as coisas que pareceram reais e fake!

    1. Obrigado Luís!
      No fim das contas o país nos pareceu muito mais “normal” do que imaginávamos. Tem seus defeitos e suas vantagens, como qualquer outro lugar. Foi uma experiência muito enriquecedora visitar a Coreia do Norte. Esperamos poder voltar lá um dia!

    1. Olá Rita! Muito obrigado!
      Infelizmente custou 850 euros por pessoa. Este foi de longe o país mais caro que já visitamos.
      Mas, se você conseguir se planejar melhor, existem tours mais baratos. Tem uns pacotes chamados “Ultra Budget” que visitam praticamente os mesmos lugares (com exceção do evento do dia das crianças) a partir de 500 euros.

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