De Maracaibo a Maicao – Cruzando a fronteira Venezuela – Colômbia por Paraguachón

Considerada uma das piores fronteiras da América do Sul, o passo de Paraguachón, que liga o litoral venezuelano com o colombiano é evitado por muitos viajantes. Nós, como bons cabeças-duras, passamos por lá, e aqui contamos como foi!

Referência (janeiro/2017)
1 dólar = 3300 bolívar fuerte*
1 dólar = 2900 pesos colombianos
1 dólar = 3,20 reais

*No câmbio negro. Lembrando que a desvalorização do bolívar e a inflação venezuelana são quase diários.

Fronteira de Paraguachón, entre Venezuela e Colômbia
Cruzando a fronteira entre Venezuela e Colômbia por Paraguachón

Uma fronteira que liga dois países cujas relações não estão das melhores, em uma zona onde supostamente guerrilhas e o tráfico de drogas comandam, além de ter vários postos de controle de uma polícia que não tem fama de ser das mais honestas. Sobre os depoimentos que lemos na internet, quase todos dizem que foram extorquidos, roubados e que não querem passar por aí nunca mais.

Quando estávamos em Mérida, conversamos com um espanhol que entrou na Venezuela por Paraguachón. Ele voltaria para a Colômbia para pegar um voo em Cartagena, mas disse que cruzaria por Cúcuta, porque não queria ter que enfrentar tudo aquilo novamente. Não deu muitos detalhes, mas nos recomendou a não voltar para a Colômbia por Paraguachón de jeito nenhum.

Para completar o cenário, tínhamos dúvidas se a fronteira estava aberta ou não, pois em 11/12/2016 o presidente Nicolás Maduro anunciou que fecharia todas as fronteiras com a Colômbia, e depois não lemos mais notícias se haviam reaberto ou não.

Pois bem, quase desistimos de passar por aí. Porém, como somos cabeça-dura e mão-de-vaca, resolvemos tentar. Afinal, queríamos seguir para a costa colombiana, e os ônibus na Colômbia são caríssimos. O que de tão ruim poderia acontecer?

Preço para cruzar a fronteira

Ônibus de Maracaibo até a fronteira: 15 mil bolívares fuertes (saem por volta das 7h da manhã).

Carro da fronteira até Maicao: 2 mil pesos colombianos na carroceria de um caminhão, ou 5 mil em moto.

Táxi compartilhado de Maracaibo até Maicao: 20 mil bolívares fuertes.

Valor da passagem para cruzar a fronteira de Paraguachón
Pagamento das nossas passagens entre Maracaibo e Maicao

A travessia

Chegamos a Maracaibo no fim da tarde, e já escutamos o pessoal no terminal gritando: “Maicao, Maicao!”. Só iríamos no dia seguinte, mas perguntamos os preços para ter uma ideia. O primeiro nos passou 25 mil, mas depois de caminhar um pouco descobrimos que o preço correto era 20 mil.

Dormimos em um hotel na frente da rodoviária mesmo (10 mil bolívares um quarto de casal). Iríamos passar mais um dia ali para conhecer Maracaibo, mas a própria dona do hotel nos recomendou ir no dia seguinte, pois seria domingo e estaria tudo mais tranquilo.

Aceitamos o conselho e, às 10h da manhã do dia seguinte, já estávamos na rodoviária procurando um táxi. Encontramos um oficial, demos nosso nome e esperamos chegarem mais 3 pessoas para seguirmos (são esses carros americanos antigos, que conseguem levar dois passageiros no banco da frente).

Esperamos cerca de uns 30 minutos e logo apareceram 3 rapazes indo para lá também. Tentamos colocar as malas e mochilas no porta-malas, mas não coube tudo. Acabaram nos transferindo para um táxi clandestino, que tinha um porta-malas maior. Na saída do terminal, o fiscal reclamou com o motorista que não tinha o registro do carro dele. Ele respondeu que era o primeiro dia dele e arrancou com o carro. Ok, assim iríamos com mais emoção.

Táxi que cruza a fronteira de Paraguachón
O carro que nos levou até a Colômbia

Pegamos a estrada às 11h. No caminho o motorista nos contou que tinha nacionalidade colombiana e venezuelana. Isso porque ele era um Wayúu, uma tribo indígena cujas terras se estendiam além da fronteira dos dois países. Desta forma, mesmo com a fronteira estando fechada para carros, ele poderia cruzar por caminhos clandestinos de um lado para o outro. Os outros três rapazes eram venezuelanos.

Durante o percurso atravessamos uma das regiões mais pobres do continente, e passamos por incontáveis postos de controle da polícia (o percurso tem cerca de 200km, e mais de 20 postos). Cada vez que chegávamos a um deles dava aquele frio na espinha – lembrávamos dos depoimentos de gente que foi extorquida ou roubada pela polícia, e não queríamos ter que dar um depoimento destes também.

Estrada de Maracaibo a Paraguachón
O caminho até a Colômbia

No final das contas, fomos parados “apenas” 7 vezes. Em algumas delas nos pediram os documentos, em outras pediram para abrir o porta-malas. Em nenhuma delas nos revistaram, nem pediram para abrir as mochilas ou fizeram qualquer insinuação a pedir propina. Tudo muito tranquilo. Acho que o fato de viajarmos pela Venezuela com a identidade em vez do passaporte ajudou: os policiais olhavam nossos documentos, não entendiam bem do que se tratava e devolviam. Um deles nos perguntou se aquilo valia e dissemos que sim. Outro foi perguntar para um vendedor ambulante se o nosso documento era válido. O restante apenas deu uma olhada e não falou nada.

A estrada foi tranquila, com um movimento razoável e toda asfaltada. Havia apenas uma parada do exército, onde todos os carros eram parados, e ali havia uma fila enorme. Nosso motorista meteu o carro na contramão e cortou a fila inteira. Disse que assim economizamos mais de 1 hora. Os soldados viram e não deram a mínima.

Fila para cruzar a fronteira
Cortando a fila pela contramão

Chegamos à fronteira por volta das 14h. Ali o motorista disse que poderíamos descer e atravessar caminhando, para fazermos os trâmites de imigração. Ele cruzaria por um caminho clandestino e nos esperaria do outro lado. Também sugeriu deixarmos as mochilas no porta-malas do carro, assim evitaríamos transtornos na fronteira. Como a polícia de imigração venezuelana tem má fama, acabamos aceitando o conselho, mesmo com o risco de ele desaparecer com as nossas mochilas. Descemos somente com nossos itens de maior valor mesmo. Os venezuelanos seguiram no carro pelo caminho clandestino.

A imigração não poderia ter sido mais tranquila: carimbamos a saída da Venezuela, caminhamos alguns metros até o lado colombiano e registramos a entrada. Sem revistas, sem extorsão, sem perguntas, sem encheção de saco.

Chegamos ao outro lado e o táxi não estava lá. Esperamos, esperamos… e esperamos. Já estávamos ficando preocupados, quando finalmente, por volta das 15h, o carro apareceu. O motorista se desculpou pela demora. Disse que o carro quebrou quando ele passou em um buraco (o táxi era realmente velho), e por isso se atrasou.

Alternativa para cruzar a fronteira Venezuela - Colômbia
Alguns meios de transporte alternativos para cruzar a fronteira

Tudo em ordem, seguimos os últimos 10km até chegar a Maicao, a primeira cidade colombiana. Ali os venezuelanos que estavam conosco ainda nos ajudaram a encontrar uma hospedagem barata. Era a casa de um conhecido deles que alugava quartos. Nos hospedamos por apenas 10 mil pesos (5 mil cada um). Os hotéis mais simples cobravam na faixa de 35 mil, então estava ótimo!

Em Maicao trocamos os poucos bolívares que ainda tínhamos por uma cotação de 1 bolívar = 0,80 pesos.

Conclusão

Não sei se andamos com sorte, se as outras pessoas é que tem azar ou se foi pelo fato de viajarmos no domingo, mas essa fronteira nos foi incrivelmente tranquila. Realmente há muito controle policial, mas isso nos trouxe mais segurança do que medo no fim das contas.

E assim deixamos mais um país para trás. Agora, rumo ao Panamá!

Para mais dicas de viagem e acompanhar nossa volta ao mundo, curtam nossa página no face:
www.facebook.com/mundosemfimoficial

5 comentários sobre “De Maracaibo a Maicao – Cruzando a fronteira Venezuela – Colômbia por Paraguachón

  1. Ótimo relato! Para desmitificar um pouco o que anda rolando na Venezuela. Achei engraçado o policial ir perguntar para o ambulante se o RG valia mesmo ou não!! kkkkkk
    Continuem firmes, está um barato acompanhar a trip de vocês!
    Abraço e boa sorte!

    1. Obrigado Marcelo! Ficamos felizes que esteja curtindo acompanhar nossa viagem!
      A passagem pela Venezuela realmente foi muito interessante. O país está um pouco complicado, mas a realidade é bem diferente do que dizem na TV. Saímos um pouco chateados de não ter explorado mais por lá, mas ficamos com medo de fecharem a fronteira novamente.
      Abraço!!!

  2. Nos dias em que vocês estavam em Chichirivite; eu, esposa, filho e filha adolescentes estavamos saindo de Santa Elena de Uairen (fronteira sul Venezuela/Brasil) em direção a Mérida.
    Vosso relato nos orientou COMPLETAMENTE…mas felizmente, e bem mais felizmente do que infelizmente, nosso filho começou a ter fortes febres e então retornamos.
    TUDO COMPLETAMENTE TRANQUILO na fronteira!!! Nada de extorsão! Muita solidariedade!!
    Tive um rápido problema em motor do carro e em uma Alcabala um soldado com fuzil e tudo a tiracolo, se dispôs a tentar gentilmente resolver o problema do carro!! Fiquei impressionado!! Não viu comportamento nenhum sugestivo a propinas ou extorsão.
    Sei sim que em páginas de brasileiros no facebook que tratam de viagens a Venezuela, aparentemente entram pessoas pagas ou ideologicamente manipuladas com objetivo de difamar a Venezuela!!!
    O cuidado que devemos ter na Venezuela é o mesmo dispensado a São Paulo, Curitiba, Brasília!!! Sendo que em Brasília nem adianta pois os bandidos andam escoltados pelas forças armadas brasileiras e tropas de choque da PM….

    1. Olá Tim!
      Que bom que deu tudo certo na passagem de vocês pela Venezuela. É um país maravilhoso mesmo, com gente muito hospitaleira. Pena que estão passando por esta crise e que de vez em quando o governo comete essas loucuras (como fechar as fronteiras de uma hora para a outra), mas basta ficar de olho nas notícias que dá tudo certo. No mais, a beleza cultural e natural são excepcionais.
      No fim das contas nos sentimos bem mais seguros lá do que no Brasil. Só tivemos que sair mesmo porque ficamos com medo que as fronteiras com a Colômbia fechassem novamente, e queremos seguir viajando por terra!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *