Como é viajar pela Coreia do Norte

Não pode fotografar? É perigoso? Precisa de guia até para ir ao banheiro? Corre o risco de ser preso sem motivo algum? Aqui compartilhamos com vocês qual é a sensação de viajar pela Coreia do Norte, e ensinamos  como ir até lá!

Estátua dos líderes na Coreia do Norte
Coreia do Norte

Recentemente voltamos de uma das viagens mais espetaculares que já fizemos: um tour de 5 dias pela Coreia do Norte! Sim, aquele país pequeno, com bombas atômicas, que poucos conhecem mas que todos já ouviram falar. E, apesar do pouco tempo que passamos lá, voltamos encantados com o povo, com a cultura, a história e as belezas deste lugar. Podemos garantir que tudo é bem diferente do que dizem na TV, e bem diferente do que imaginávamos. Esta é uma das poucas oportunidades que se têm de escutar o outro lado da história, e nós tentamos aproveitá-la ao máximo.

Antes de seguir com o texto, quero deixar bem claro que não somos ingênuos. Sabemos que o país é uma ditadura, que nem tudo o que nos contaram por lá é verdade e que os turistas têm uma experiência bem diferente da vivida pelos coreanos. Ainda assim, aprendemos muito com esta viagem, seja nos passeios de ônibus, tentando conversar com a população local ou simplesmente observando a vida pela janela.

Todos os comentários a seguir refletem a nossa opinião e o que sentimos ao visitar o país. Não somos donos da verdade, e sabemos que cada experiência é única. Por que não embarca também para lá e tira suas próprias conclusões?

Como visitar?

A Coreia do Norte não é um país onde você pode simplesmente chegar com a mochila nas costas e pedir para entrar. É preciso ter tudo organizado por uma agência. Nós fomos com a Young Pioneer, e ficamos bem satisfeitos com o serviço. Além de ser a mais econômica, ofereceu o passeio mais interessante e nossos guias foram excelentes.

Há vários pacotes de tours para lá. Os preços em geral ficam na faixa dos 200 euros por dia, com hospedagem, refeições e entradas incluídas. O nosso tour de 5 dias/4 noites, incluindo o Dia das Crianças, ficou em 850 euros (+50 euros de visto).

Dia das Crianças na Coreia do Norte
Dia das crianças na Coreia do Norte

Tirando este detalhe de exigir a agência, visitar a Coreia do Norte é muito fácil: basicamente é só pagar e ir. Os tours partem da China, e tudo é arranjado pela agência (inclusive o visto). Você terá mais dificuldades em conseguir o visto chinês do que com os procedimentos da Coreia do Norte em si.

  • Leia sobre como tirar o visto da China aqui.

A opção mais econômica é ir e voltar de trem, a partir de Pequim. Caso você não queira encarar uma viagem destas, ou não queira tirar o visto chinês, existe a opção de voar de Pequim para Pyongyang (a capital da Coreia do Norte). A China libera a entrada sem visto por até 6 dias para brasileiros, desde que entrem e saiam do país por avião (e não façam viagens internas).

É opcional dar gorjeta para os guias no final do passeio. O sugerido pelas agências é 15 euros por dia, mas você só dá se quiser. E não rola pressão nenhuma: apenas passam um envelope e ninguém confere quanto cada um doou. Você também pode levar presentes se quiser.

Qualquer um pode visitar?

Qualquer um, exceto estadunidenses, sul-coreanos e jornalistas. No caso dos dois primeiros, a restrição é de seus próprios países. Pela Coreia do Norte, tudo bem.

Para jornalistas é necessário um visto especial (mesmo que você não esteja indo fazer jornalismo por lá). Caso você seja jornalista e queira conhecer a Coreia do Norte como turista, sugerimos contar a verdade para a agência e ver o que eles sugerem. Se você mentir a sua profissão na ficha do visto, provavelmente ninguém descobrirá. Mas a decisão é sua.

Pode filmar? Fotografar? Levar câmeras?

Esta foi outra lenda que escutamos: que só pode fotografar lugares específicos e que filmagens são proibidas.

Pura besteira. Filmamos praticamente tudo no país. Os únicos lugares onde não pudemos filmar foram: a imigração, uma parte de uma zona militar próxima à Coreia do Sul e um supermercado (no caso do supermercado era para não virar bagunça, pois não tinha nada demais lá dentro).

A única restrição com câmeras é se tiver lentes muito grandes (daquelas telescópicas). No mais, pode levar câmera profissional, GoPro, celular, etc. Em caso de dúvidas, pergunte à agência.

Estamos postando no nosso canal do YouTube todos os vídeos que fizemos no país.

Coreia do Norte
Nós e um militar na DMZ (perto da fronteira com a Coreia do Sul)

O que mais não pode levar?

É proibido levar aparelhos de GPS. Não há problemas em celulares ou câmeras com GPS: a restrição é com equipamento profissional mesmo.

Também é proibido levar pornografia, livros religiosos (como a Bíblia ou o Alcorão) ou guias de viagens da Coreia do Norte (tipo Lonely Planet e a fins).

Cigarros, bebidas e comidas estão liberados, e aparentemente não há restrições quanto à quantidade.

Vestimentas

Você pode usar a roupa que você quiser na Coreia do Norte. Apenas é exigido calças compridas e camisetas não tão chamativas quando for visitar a estátua dos líderes ou quando for visitar o mausoléu.

Como é a imigração?

Nós fizemos nossa entrada e nossa saída por terra. Você carimba a saída da China e pega o trem direto para Pyongyang. Logo após cruzar a ponte, é parado na imigração coreana. O procedimento ali leva quase 2 horas, e tudo é feito no trem mesmo. Os guardas entram, pegam os passaportes, fazem uma revista superficial nas malas e então você está liberado. Pode sair do trem, comprar uma cerveja e tirar fotos enquanto espera eles terminarem os procedimentos.

Eles pediram para descrevermos todos os eletrônicos que levávamos e tomaram nota, mas não pediram para ver nenhum além da nossa câmera profissional. No caso da câmera, o oficial apenas ligou, deu uma olhada nos menus e devolveu.

A saída foi ainda mais tranquila. Nós estávamos com medo de perder nossas fotos ou nossos vídeos, portanto escondemos todas em uma pasta oculta no computador. Mas os caras nem conferiram nada. Apenas perguntaram se tínhamos dinheiro coreano (won). É proibido sair com won do país, mas nós trouxemos uma nota escondida de lembrança. Eles nem procuraram.

Imigração da Coreia do Norte
Trem que nos levou da China à Pyongyang

De uma forma geral, achamos tanto a entrada quanto a saída bem tranquilas. Nos dois casos, o oficial que nos atendeu ficava até fazendo piadinhas para quebrar o gelo.

É seguro?

Em termos de roubos ou assaltos, a Coreia do Norte é um dos países mais seguros do mundo. Inclusive um alemão que estava em nosso grupo deixou cair o celular dele em um circo. Quando se deu conta já estávamos longe. Mas bastou uns telefonemas que o celular logo foi localizado.

Você também não corre o risco de ser preso, desde que não cometa nenhum crime. Ninguém vai te levar para a cadeia por conta de uma foto, por exemplo, mas se você tentar roubar alguma coisa ou desrespeitar os líderes do país, aí sim estará em problemas.

Há três casos famosos de turistas que foram presos: um deles porque foi flagrado pelas câmeras roubando um pôster de um hotel, outro porque largou uma Bíblia em uma discoteca e outro porque quis ser preso (sim, ele chegou na imigração, rasgou o visto e disse que queria ser preso. Sua motivação era conhecer os presídios do país).

Todos eles foram condenados a penas duras, mas, com exceção do primeiro, foram liberados em um tempo relativamente pequeno. O cara que foi pego roubando o pôster foi devolvido para os EUA em coma e acabou morrendo. Apesar de os meios de comunicação terem sugerido assassinato, o próprio governo dos EUA rejeitou a hipótese, dando como causa mais provável uma doença.

Precisa de seguro viagem?

O governo norte-coreano não exige. As agências pedem, embora não cheguem a conferir. Se você quiser fazer um seguro, a própria agência pode arranjá-lo para você. O preço fica na faixa de 10 euros por dia.

Zona rural da Coreia do Norte
Um pouco da vida do campo, que se vê enquanto viaja de trem

Que moeda levar?

Euros, dólares ou yuan (dinheiro chinês) são bem aceitos por lá. O ideal é levar notas pequenas para facilitar o troco.

Se o seu tour incluir uma visita ao supermercado, você terá a oportunidade de trocar dinheiro pela moeda local. Neste supermercado há uma casa de câmbio que aceita qualquer uma das moedas citadas acima.

Posso andar sem guia?

Não. Estrangeiros precisam estar acompanhados de um guia local para circular pelas cidades. Na viagem de trem você pode ir sozinho.

Os guias ficam no pé?

Não. Essa história de que precisa de guia até para ir no banheiro é mentira. O tour parece muito um tour CVC mesmo: o guia vai na frente e o grupo vai acompanhando as explicações.

Em alguns locais o guia te deixa livre e marca um ponto de encontro no final. Foi assim no evento do dia das crianças e no supermercado (que é também um mini-shopping).

Posso conversar com o povo local?

Sim, sem problemas, embora dificilmente você encontre alguém que fale inglês. Mas, se souber falar coreano ou usar um aplicativo de tradução, pode conversar com quem quiser. Na viagem de trem, inclusive, é bem provável que algum coreano puxe papo com você.

Vimos uma reportagem no Fantástico em que entrevistavam uma moça e ela parecia um robô respondendo:

“Que filme você gosta?”

“Os filmes que mostram os feitos do nosso grande líder.”

“Que música você gosta?”

“As músicas que falam dos feitos do nosso grande líder.”

Pura besteira. Os coreanos conversam normalmente sobre qualquer assunto. É óbvio que, como o país é uma ditadura, você deve evitar temas delicados. Não vá esperando que eles saiam falando mal do Kim Jong Un para qualquer um, mas vocês podem conversar sobre música, filmes, viagens, comida, esportes, etc.

É verdade que eles pensam que são campeões da Copa do Mundo?

Não. Eles sabem que foram derrotados pelo Brasil em 2010, e ficaram bastante orgulhosos por terem enfrentado (e até feito um gol) em uma seleção tão forte quanto a nossa.

Essa história de que eles foram informados de que foram campeões do mundo em um jogo contra os EUA é pura mentira.

DMZ - Coreia do Norte
Fronteira entre Coreia do Norte e Coreia do Sul. As casas azuis estão metade em cada país.

Tem internet?

Estrangeiros podem comprar um chip com internet liberada, mas é absurdamente caro (estamos falando de centenas de dólares por uns poucos megas). O ideal é ficar desconectado nestes dias mesmo.

Os norte-coreanos têm acesso a uma internet bastante limitada, e não conseguem acessar muita coisa além do site do partido.

A experiência é autêntica ou é um grande circo?

Esta é a maior dúvida que todos têm: vale a pena pagar tão caro em um tour para ver um espetáculo armado para os turistas?

Vale. Você vai, sim, conseguir ver como é o país. Durante a viagem de trem e os deslocamentos pelas estradas (caso inclua outras cidades no passeio), você verá cidadezinhas rurais e a dura vida do povo no campo. Enquanto estiver em Pyongyang, você verá como a cidade é organizada, verá o povo saindo para trabalhar, as crianças brincando na praça. Olhe para dentro das janelas e verá os coreanos comendo em restaurantes, fazendo compras, cortando o cabelo ou bebendo várias cervejas nos bares. Se visitar o supermercado, verá gente normal comprando produtos para as suas casas. Suba até o terceiro andar, onde tem um refeitório, e verá centenas de coreanos comendo ou apreciando seus excelentes chopes que custam menos de 1 real.

Algumas pessoas que nunca foram lá vão argumentar que tudo isso é mentira, que são todos atores contratados para ficar nas ruas onde passamos. Não me parece nada verossímil que manteriam uma cidade inteira funcionando 24h por dia só para enganar um punhado de turistas que visita o país, mas cada um acredita no que quiser.

Mas há, claro, situações em que é preciso questionar. Os hotéis são de excelente qualidade e possuem água e luz 24h por dia. É assim para a população local? Não sabemos.

Um dia visitamos a biblioteca nacional, que é um prédio belíssimo. Lá dentro havia uma boa quantidade de gente estudando. Provavelmente era real. Mas visitamos uma sala onde havia livros estrangeiros, tais como Harry Potter e Mark Twain. É uma sala comum, ou esta sala é restrita aos turistas? Como não vimos nenhum local entrando nesta sala, nos inclinamos a pensar nesta segunda opção. Quando fomos ao banheiro da biblioteca, vimos que não havia água corrente, mas sim um grande balde de água parada onde você podia lavar as mãos ou despejar na privada usando uma bacia. Talvez, dentro das residências futurísticas de Pyongyang, a coisa seja neste nível?

Biblioteca da Coreia do Norte
Biblioteca Nacional em Pyongyang

Os restaurantes onde comemos serviam comida tradicional, mas em nenhum deles vimos coreanos comendo. Num dos dias fomos a um circo, supostamente aberto em comemoração ao dia das crianças, mas a maioria absoluta das pessoas lá dentro eram turistas estrangeiros (chineses, em sua grande maioria).

Outra vez visitamos uma escola, onde supostamente haveria uma apresentação dos alunos. A apresentação era feita para turistas: não vimos nenhum pai ou mãe dos alunos por lá, e quando terminava uma apresentação já havia fila de turistas para ver a próxima.

Enfim, é difícil chegar a uma conclusão plausível. Mal conhecemos a realidade do nosso próprio país, como vamos conhecer a de um lugar tão fechado quanto a Coreia do Norte? Há que ir e ver com seus próprios olhos.

Se você tiver bastante dinheiro, poderá contratar um guia particular e ter mais liberdade de ir onde quiser e quando quiser.

Aqui está um vídeo em que discutimos mais sobre este assunto, e falamos sobre os lugares que nos pareceram autênticos e os que nos pareceram pura armação:

Se eu visitar o país, estarei financiando a ditadura?

Não. Nunca na história (pelo menos que eu saiba) um ditador disse: “estão vindo poucos turistas para cá. Vou renunciar”.

Na verdade, quanto mais fechado estiver o país, mais fácil fica para um ditador governá-lo com mãos de ferro. O turismo é uma forma de levar um pouco do mundo exterior para a Coreia do Norte. Por conta das censuras e da dificuldade de se viajar para o exterior, os coreanos pouco sabem sobre a vida em outros países. Quanto mais turistas forem para lá, mais acesso à informação eles terão. Acreditamos que, desta forma, o país irá aos poucos se abrindo, aumentando cada vez mais a liberdade do povo.

Coreia do Norte
Pyongyang, a capital

É isso, pessoal!

Esperamos que, com este post, tenhamos tirado suas dúvidas sobre como é conhecer este país tão exótico. Logo mais faremos outro detalhando como foi nosso tour, que lugares visitamos e essas coisas.

Se quiser saber mais sobre a Coreia do Norte, não deixe de nos seguir em nossas redes sociais. Estamos subindo vários vídeos de lá para o YouTube!

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