Visitando a cidade fantasma de Sewell, Chile

Localizada dentro da mineradora de Sewell, esta pequena cidade foi construída em 1904 para servir de lar a seus trabalhadores. Ao longo de sua existência, chegou a abrigar mais de 16 mil pessoas, e hoje se encontra desabitada e tombada como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

Referência (março 2016)
1 real = 185 pesos chilenos


 

Em nossa busca por lugares impressionantes e ainda pouco explorados por brasileiros, chegamos a este enigmático lugar, a poucas horas da capital chilena Santiago. O lugar vale a visita, principalmente para aqueles que nunca tiveram a oportunidade de visitar uma cidade abandonada antes!

Cidade de Sewell - Patrimônio da UNESCO
Vista lateral da cidade de Sewell

Como chegar a Sewell

A única forma de chegar a este local é através de uma excursão. Não adianta tentar ir por conta própria, pois a cidade está localizada dentro da mineradora Sewell (uma das maiores do continente), e o acesso é bem restrito.

Quem leva é a VTS Enjoy Travel (http://vts.cl/), em um tour guiado (e tivemos a sorte de pegar um guia que havia morado lá!) que inclui transporte até Sewell e um bom almoço. As saídas podem ser de Santiago ou Rancágua.

Almoço do tour
Almoço chique – coisa rara em nossa viagem!

A reserva do tour pode ser feita pela internet mesmo, e o pagamento é na hora do embarque (em dinheiro ou cartão).

Os tours saem todos os sábados ou em ocasiões especiais, como feriados, e custam $42 mil (saindo de Santiago) ou $37 mil (saindo de Rancágua). No feriado da semana santa, estavam dando um desconto de 20%.

A vida em Sewell

A cidade foi construída em 1904 para abrigar o pessoal que trabalhava nas minas de mesmo nome, e em 1918 mais de 14 mil pessoas já viviam ali. A ideia de construir uma cidade na mina é porque o acesso para lá era muito complicado para quem vivia na cidade mais próxima (Rancágua), principalmente no inverno.

Escadarias de Sewell
Por tantas escadas, Sewell também foi conhecida como “A Cidade das Escadarias”

Além disso, essa era uma boa estratégia para manter os empregados na empresa: os mineradores recebiam um salário razoavelmente alto para aquela sociedade, e muitos costumavam trabalhar 6 meses para juntar dinheiro e depois desaparecer, voltando ao trabalho somente quando a grana acabasse, o que deixava a empresa muito frágil. Com a construção da cidade, podiam levar para lá famílias inteiras, fazendo com que os trabalhadores criassem raízes ali e não quisessem sair mais.

Mucuvinha passeando por Sewell
Mucuvinha em Sewell

A sociedade em Sewell era dividida em três grupos:

  • Grupo 1: composto quase que unicamente por estadounidenses, era o grupo do alto-escalão, onde estavam os principais diretores da empresa. Estes viviam em casas particulares de dois andares, frequentavam clubes restritos e praticamente não tinham contato com os outros grupos.
  • Grupo 2: composto por engenheiros e técnicos (geralmente chilenos), viviam em apartamentos razoáveis, e frequentavam os mesmos clubes que o grupo 3.
  • Grupo 3: composto pelos trabalhadores mais humildes. Viviam com sua família em pequenos quartos, dentro de edifícios com banheiro coletivo e água quente somente duas vezes por semana (terças e quintas).

Apesar da divisão de classes ser bem marcante em Sewell, o modelo adotado ali trazia alguns benefícios bem interessantes aos trabalhadores: praticamente tudo era gratuito; só pagavam pela comida e pelas roupas. Tudo mais (educação, hospital, clubes esportivos, combustível para o fogo e a hospedagem) era gratuito, e de excelente qualidade (o hospital de Sewell chegou a ser considerado o melhor do Chile). Para o povo mais humilde da época, a oportunidade de educar os filhos era uma bênção.

Antiga quadra de boliche de Sewell
Quadra de boliche de Sewell, mantida intacta até hoje.

A sociedade ali também era bem conservadora: era proibido o consumo de bebidas alcoolicas (embora ouvessem “traficantes”) para os grupos 2 e 3, assim como namorar. Se algum homem fosse pego paquerando com uma mulher, era intimado a casar ou deixar a cidade. Em uma sociedade composta quase 70% por homens, essa era uma regra dura.

Nosso guia, nascido e criado em Sewell, contou como era boa a vida para as crianças ali. Podiam correr soltos tranquilos por toda a cidade, sem se preocupar com violência ou qualquer coisa do tipo. Contava ainda que era difícil para as pessoas que saíram de lá se acostumarem com a vida nas outras cidades, pois estavam acostumadas a deixar todos os seus pertences do lado de fora sem medo de roubo.

Guia e antigo morador de Sewell
Com Mario, nosso guia nascido e criado em Sewell

Parte da cidade já foi destruída, mas o centro e os principais edifícios continuam em pé e em ótimo estado. A mineradora investe para que os edifícios que restaram permaneçam em bom estado para o turismo.

Este vídeo mostra um pouco como era a vida nesta cidade:

A tragédia de Sewell

Em 1945, um incêndio nas minas causou um dos maiores desastres no setor da mineração: 355 trabalhadores foram mortos por inalar a fumaça. A partir deste evento, a empesa passou a investir em normas de segurança, que até então não era preocupação no local.

Tragédia de Sewell
Mural retratando a tragédia de Sewell

As consequências da tragédia foram além das mortes: como as habitações das vítimas do desastre precisariam ser liberadas para novos trabalhadores, as viúvas e filhos que viviam ali precisariam deixar Sewell, muitos sem ter para onde ir.

Este problema foi resolvido em um acordo entre a mineradora e o estado, que disponibilizaria para estas famílias uma casa na cidade de Rancágua e uma pequena pensão.

O declínio de Sewell

Nos anos 70, após parte da empresa ter sido nacionalizada e as estradas entre Rancágua e a mina estarem bem desenvolvidas, já não havia muito interesse em manter a cidade funcionando. Aos poucos, as famílias que viviam ali foram se mudando, e em 1978 o último morador apagou a luz de sua casa.

Igreja de Sewell
Interior da antiga igreja de Sewell

A partir daí, alguns prédios foram demolidos e outros remodelados para uso interno da mineradora. Em 1998 o governo chileno declarou Sewell como Monumento Nacional, e em 2006 a pequena cidade ganhou o título de Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

Museu de Sewell
Interior do museu dedicado à história da cidade e ao cobre, principal metal extraído em Sewell

Dicas

  • Leve comida e água. Apesar do almoço estar incluído, ele é servido depois do passeio, por volta das 15h.
  • Sewell está a cerca de 2200m de altitude. Apesar de ser pouco provável que você se sinta mal a esta altura, é possível que se canse com mais facilidade. Leve chocolate para ganhar energia!
  • Leve casaco. Não importa se em Santiago faz 30°, é bem possível que em Sewell esteja frio.
  • A mineradora é bem restrita com normas de segurança, e não permite o ingresso de pessoas de chinelo ou sandálias. Vá de tênis, bota ou sapato.
  • Passe protetor solar, pois o sol pode ser cruel.
  • A idade mínima para visitar Sewell é 7 anos, e a máxima é 75.

 

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5 comentários sobre “Visitando a cidade fantasma de Sewell, Chile

  1. Sou brasileira do Rio de Janeiro, moro em Rancagua e meu marido nasceu em Sewell, mas saiu de lá bebê. Adorei o post de vocês, vou conhecer a cidade em agosto. Boa viagem e continuem nos enriquecendo com a cultura dessa mundão.

    Beijos!!!!

    1. Olá Adriana! Que legal!!!
      Tem que ir conhecer sim, vai adorar a cidade de seu marido! Deve ser muito legal ter “Sewell” no documento de identidade! 🙂
      Bom passeio por lá!
      Beijoo

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