Presídio do Ushuaia – a prisão do fim do mundo

Visita obrigatória para quem passa pelo Ushuaia, este antigo presídio de segurança máxima se converteu em museu, e hoje ajuda a entender melhor a história desta cidade. Ali também se concentra o Museu Naval e um Museu de Artes. Tivemos o privilégio de visitar este enigmático e assustador local, e vamos compartilhar tudo aqui com vocês!

Referência:

1 Real = 3,67 Pesos Argentinos (fevereiro 2016)

História

Logo após ter firmado com o Chile o tratado de divisão de fronteiras, o governo argentino passou a usar sua região no extremo sul do continente para enviar presos militares. Inicialmente instalou-se um presídio na pequena Ilha do Estado, que funcionou de 1884 a 1889, mas este acabou sendo fechado devido às condições sub-humanas impostas pelo clima da região.

Em 1902, começam a enviar presos militares à região onde atualmente está a cidade do Ushuaia, para que estes ajudassem a construir este novo presídio, que atualmente se converteu em museu (não havia risco de fugas devido ao isolamento geográfico da região).

Em 1904 o presídio foi finalmente inaugurado, e se manteria em funcionamento até 1947, quando finalmente seria fechado pelo então presidente Juan Perón, por razões humanitárias (embora muitos afirmem que o real motivo do fechamento foi porque, financeiramente, não valia mais a pena mantê-lo funcionando).

Presídio do Ushuaia
Pavilhão totalmente restaurado, onde está o museu do presídio. Cada cela conta uma história.

A partir de 1917 o presídio deixaria de ser exclusivamente militar e passaria a receber presos comuns, condenados por crimes brutais ou que fossem reincidentes. Nos anos finais de seu funcionamento, o presídio seria usado também para encarcerar presos políticos.

Questões humanitárias

As opiniões sobre as questões humanitárias neste presídio se divergem. Por um lado, muitos o consideram exemplar, pois os presos sem educação básica recebiam o ensino primário e todos, com exceção dos idosos ou incapacitados, trabalhavam e recebiam salário diário (que era guardado em uma conta e entregue ao final da pena ou enviado à família). O trabalho poderia ser em oficinas (que construíam sapatos, roupas, artesanato, etc), na construção ou nos campos, cortando lenha para usar na calefação.

O outro lado da história denuncia muitos casos de tortura e abuso no local. Além do mais, o isolamento geográfico impedia que os presos pudessem receber visitas de amigos e familiares.

Preso político no Ushuaia
Durante os últimos anos de funcionamento, este presídio seria usado também para a reclusão de presos políticos.

Independente do ponto de vista, não se pode negar a importância deste local para a história do país. Afinal, foi a partir dele que surgiu a cidade mais austral do mundo, que hoje recebe milhares de turistas todos os anos.

O Trem do Fim do Mundo

Atualmente parte do roteiro de turistas do mundo todo, o famoso Trem do Fim do Mundo foi criado para transportar lenha da floresta para o presídio. A locomotiva original e um dos vagões pode ser vista atualmente no museu.

Locomotiva no presídio do Ushuaia
A locomotiva original do Trem do Fim do Mundo pode ser encontrada ao lado do Museu do Presídio

O trem percorria uma pequena distância (algo em torno de 7km) entre a cidade e onde atualmente está o Parque Nacional. Apesar de parecer pouco, este trem foi vital para o funcionamento do presídio, já que as condições climáticas, principalmente no inverno, tornavam a tarefa de buscar lenha algo perto do impossível.

Hoje em dia, por 530 pesos, é possível percorrer seu caminho em uma réplica do original.

Fugas

Várias tentativas de fugas ocorreram no local, embora pouquíssimas bem sucedidas. Escapar do presídio em si não era uma tarefa muito difícil, mas uma vez do lado de fora, não havia para onde ir. Sem comida, com frio e impossibilitados de acender uma fogueira (porque, se o fizessem, seriam facilmente encontrados), os fugitivos acabavam voltando e pedindo perdão pela evasão.

Há alguns presos que escaparam e nunca mais voltaram. Não se sabe se tiveram êxito ou se acabaram morrendo no caminho.

Um dos presos mais famosos do local, Simón Radowitzky, ficou conhecido por ter efetuado uma das poucas fugas bem-sucedidas (embora posteriormente tenha sido capturado e enviado novamente ao presídio). Mais abaixo contaremos sua história.

O museu

O museu do presídio fica no começo da cidade, e pode ser alcançado tranquilamente a pé. Atualmente, ali se concentra o museu do presídio, o museu naval e um museu de artes.

Banheiro do presídio do Ushuaia
Banheiro de um dos pavilhões.

Dos originais 5 pavilhões, 4 podem ser visitados. Estão divididos assim:

  • Pavilhão 1 – concentra o museu do presídio e o museu naval
  • Pavilhão 2 – está o museu de arte e parte do museu naval
  • Pavilhão 3 – está o presídio como foi deixado, sem restauração. É possível visitar as celas e o banheiro.
  • Pavilhão 4 – tem uma pequena loja e um museu de exposições artísticas.
  • Pavilhão 5 – fechado por se encontrar em péssimas condições.

A entrada custa 150 pesos para residentes do Mercosul e dá direito a acessar todos os pavilhões. Se for estudante, o preço da entrada cai para 90 pesos (e aceitam carteirinha de estudante brasileira aqui).

Pavilhão do presídio do Ushuaia
Pavilhão que foi deixado como foi encontrado o presídio após seu fechamento. Chega a dar calafrios…

Com a entrada, é possível entrar e sair do museu por um prazo de 48h.

Todos os dias há visitas guiadas (em espanhol) às 11h30min, 16h30min e 18h30min. Se tiver a oportunidade e conseguir entender razoavelmente bem o espanhol, procure fazer a guiada. Não se paga mais por isso e se aprende muito.

Nas segundas, quartas e sextas, às 20h, há uma apresentação de teatro no local, onde você participa como presidiário e é guiado por atores, para sentir o dia-a-dia no presídio. Esta se paga separado (180 pesos) e é para maiores de 15 anos. Se tiver uma graninha sobrando, pode ser interessante.

Presos famosos

  • Cayetano Santos Godino, “el Petiso Orejudo” (o nanico orelhudo):

Caçula de uma família de 5 irmãos, sofria com um pai bêbado que batia nele sem motivo. Foi para a escola mas acabou saindo porque não conseguia aprender a ler ou escrever. Desde muito novo, costumava torturar e matar animais, e por isso foi internado em um hospício para crianças, mas acabou recebendo alta por não apresentar comportamento anormal.

Com o passar dos tempos, seu instinto assassino não se contentou mais com animais, e ele passou a torturar e matar crianças. Também tinha o costume de visitá-las em seu funeral, a fim de ver o resultado do seu trabalho.

Desconfiada, a polícia armou uma armadilha: após encontrar uma criança asfixiada e morta com um prego enfiado na cabeça, prepararam o corpo e removeram o prego para o funeral. Cayetano foi ao enterro e, ao ver que o prego havia sido removido, começou a ficar inquieto, até que uma hora não aguentou e perguntou: “Cadê o prego?”

Petiso Orejudo, no presídio do Ushuaia
Cela do “Petiso Orejudo”, um dos presos mais famosos do local.

Com isso, foi preso e condenado na mesma hora. Como tinha orgulho de seus crimes, não hesitou em confessar e detalhar cada assassinato que cometera.

Acabou sendo declarado deficiente mental e foi internado em um hospício, mas devido ao mau comportamento foi transferido para o presídio do Ushuaia. Era isso que ele queria: como se considerava um assassino profissional, queria ser tratado como tal.

No presídio, apresentou bom progresso nos estudos e ia bem nos trabalhos, mas depois de alguns anos seu instinto assassino falou mais alto e ele acabou matando um gato, que era o mascote do pessoal. Isso despertou a fúria dos outros detentos, que o espancaram até a morte.

  • Simón Radowitzky

Simón Radowitzky nascera na Ucrânia, e com o tempo se tornou adepto ao anarquismo. Após uma rebelião na fábrica que trabalhava, Simón acabou sendo condenado à prisão na Sibéria, mas conseguiu ser exilado na Argentina. Lá se integraria a movimentos anarquistas, e mais tarde acabaria sendo preso acusado de assassinato. Ele teria colocado uma bomba no veículo do chefe da Polícia Federal da Argentina, matando-o desta maneira, na que futuramente seria conhecida como Semana Roja (semana vermelha). Foi sentenciado com pena de morte, mas sua família conseguiu evitar esta pena alegando que ele era menor de idade. Com isso, foi transferido para o Ushuaia por tempo indeterminado.

Ficou famoso por ter realizado uma das poucas fugas bem-sucedidas de lá (embora pouco tempo depois tenha sido recapturado e enviado novamente ao presídio). Com a ajuda grupos anarquistas (e supostamente de alguns policiais), teria recebido um uniforme oficial e saído da prisão pela porta da frente. A partir daí, conseguiu tomar uma embarcação até o Chile, onde foi recapturado e deportado à Argentina novamente.

Depois de alguns anos, foi liberado com a condição de que saísse e nunca mais voltasse à Argentina. Foi para a Espanha, onde lutaria na Guerra Civil Espanhola.

Mesmo anos depois do fechamento do presídio e de sua morte, este preso ainda recebe correspondências de pessoas simpatizantes à sua causa.

Curiosidades

  • O presídio foi construído pelos próprios presos.
  • Devido à dificuldade de receber materiais de outras regiões, o presídio foi construído unicamente com materiais encontrados na ilha.
  • Inicialmente seria um presídio militar, mas acabou se tornando um presídio para criminosos mais perigosos ou reincidentes.
  • Fechado em 1947 pelo presidente Perón alegando motivos humanitários, embora alguns acreditem que os motivos reais tenham sido financeiros.
  • Recebeu muitos presos políticos durante a ditadura.
  • Com exceção dos velhos ou descapacitados, todos os presos eram obrigados a trabalhar. Recebiam um salário, que poderia ser retirado após cumprirem a pena.

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4 comentários sobre “Presídio do Ushuaia – a prisão do fim do mundo

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