Mochilando pelo Tibete chinês – sem guia e de carona

Aqui contamos um pouco como foi uma das melhores experiências que já tivemos na Ásia: viajar pela região do Tibete, enfrentando frio e pegando carona sem falar nada do idioma local.

O Tibete

Quase que o Tibete não entra no nosso roteiro. Isso porque, pelo que havíamos lido até então, é preciso ter um visto especial para visitá-lo, e é obrigatório estar acompanhado por um guia 24h por dia. Os passeios deste tipo rondam os 100 dólares por dia (por pessoa), o que estava bem longe do nosso orçamento.

Templo típico do Tibete chinês
Templo típico do Tibete, com suas rodas de orações ao redor

Mas então descobrimos que era possível, sim, conhecer uma parte do Tibete sem guia. Na China há um estado chamado Tibete que funciona como uma região autônoma. Lá, sim, é preciso de guia para visitar. Mas a cultura tibetana se estende além deste estado, ocupando parte dos estados vizinhos e também de outros países, como Nepal e Índia. E foi esta região vizinha que nós visitamos. Fazendo um comparativo com o Brasil, seria como se você quisesse visitar a selva amazônica mas não pudesse entrar no estado do Amazonas. Nada o impediria de visitar a floresta pelos estados vizinhos.

O trajeto que fizemos foi este:

Mochilando pelo Tibete
Nosso roteiro pelo Tibete chinês

Nossa aventura tibetana começou na cidade de Shangri-Lá (também chamada de Zhongdian) e terminou em Chengdu. Foi uma aventura e tanto, já que pouca informação se encontra sobre o caminho entre estes dois destinos. Não tínhamos nem certeza se éramos autorizados a viajar por estes lados, e nem se as estradas não poderiam estar fechadas pela neve. Mas, felizmente, deu tudo certo!

Shangri-lá

Shangri-lá é um destino bastante turístico na China, e muitos ocidentais a visitam. O fato de receber muitos turistas estragou um pouco a autenticidade da cidade, mas mesmo assim gostamos bastante de conhecê-la.

O centro histórico de Shangri-lá é muito bonito, repleto de lojas que vendem produtos para turistas, como roupas, artesanatos e carne seca de Yak (uma espécie de boi peludo muito comum na região).

Shangri-lá, China
Centro histórico de Shangri-lá

Sobre um dos cerros está um templo que guarda a maior roda de oração do mundo. São necessárias no mínimo 4 pessoas bem fortes para movê-la. E, segundo nos contaram, há que girá-la 3 vezes. Mas, como toda hora chega gente (turistas ou religiosos), não é difícil conseguir formar um grupo.

Outro destino interessante é o “Templo das 100 galinhas” que fica sobre outro cerro, um pouco afastado do centro. O caminho para lá é cheio de bandeirinhas tibetanas, e topamos com vários Yaks durante a caminhada. A vista lá de cima é muito bonita.

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O principal atrativo de Shangri-lá é o monastério Ganden Sumtseling, que fica a uns 8 quilômetros do centro (há ônibus locais que fazem o trajeto por 2 yuan). Não visitamos porque desanimamos com o valor absurdo da entrada: 115 yuan por pessoa (algo como 70 reais).

Em Shangri-lá ficamos no hotel Shangri-la High Altitude Love Guesthouse, pagando 60 yuan (36 reais) em um quarto de casal com banheiro privado (e o banheiro tinha privada ocidental!). Para comer gastávamos entre 12 e 15 yuan por refeição.

De Shangri-lá a Litang

Aqui começava o desafio. A maioria dos turistas chega até Shangri-lá e de lá pega um voo para outro lugar, ou retorna até Lijiang e pega um trem para outro canto da China. Poucos se aventuram pelo norte, e nem a população local sabia realmente nos informar se nós podíamos seguir este trecho por terra ou não. Mas decidimos arriscar.

A ideia era tentar carona por aqui (seria nossa primeira carona na China), mas a gente sempre acaba inventando uma desculpa para ir de ônibus. Dissemos que a estrada era longe, que não sabíamos como seria este trecho, que estava frio e esta coisarada toda. Por fim, pegamos um ônibus para um lugar chamado Xiangcheng. A passagem custou 97 yuan (quase 60 reais) e a viagem duraria 8 horas. Duraria, pois no caminho nos perdemos e fomos parar em outro lugar.

Tibete chinês
Estrada para o norte de Shangri-lá

Como alguém se perde viajando de ônibus? Explico: no meio do caminho o ônibus parou, o motorista falou alguma coisa em chinês (ou em tibetano, não sei) e a maioria dos passageiros desceu e foi para outro ônibus. Nós entendemos que nosso ônibus havia quebrado e que deveríamos trocá-lo. Mas não: quem quisesse ir para Xiangcheng deveria ter permanecido. Quem fosse para Daocheng deveria trocar de ônibus. Só nos demos conta do nosso erro quando fomos parar em Daocheng.

Ok, nada de pânico: usaríamos Xiangcheng apenas como um ponto de parada para pegar outro transporte (já que não havia ônibus direto para Litang desde Shangri-lá). Em Daocheng também havia transporte para Litang (e mais barato inclusive). Acabamos pegando um táxi compartilhado por 60 yuan por pessoa (mais uma vez iríamos pegar carona, mas usamos a desculpa de que já estava muito tarde).

Mucuvinha e o noodles de Yak
Comendo um noodles com carne de Yak

Toda esta viagem foi tranquila, passando por alguns trechos com um pouco de neve ao redor da estrada. Chegamos a altitudes de mais de 4400 metros, que torna a respiração um pouco difícil. E chegamos a Litang no fim da tarde.

Litang

Litang foi uma das cidades mais interessantes que já visitamos até hoje. Local de nascimento do sétimo Dalai Lama, este destino pouco turístico exibe a cultura tibetana (e a ocupação chinesa) por todos os cantos.

Chegamos a Litang quando começava a escurecer. Uma senhora veio nos oferecer um hotel por 60 yuan. O preço era bom (mais tarde descobrimos que esta cidade é mais cara do que a média na China), mas o banheiro era impossível. Ficava do lado de fora, não tinha ducha e nem água corrente. Você fazia em um buraco de concreto no chão (como limpavam eu não sei; se é que alguma vez limpavam). Acabamos caminhando um pouco e encontramos outro por 120 yuan. Choramos e baixaram o preço para 80 yuan (quase 50 reais). O banheiro era estilo turco, mas pelo menos dava para dar a descarga.

Litang, uma bela cidade no Tibete da China
As ruas de Litang

Passamos 2 noites em Litang. A cidade é pequena, com um centrinho moderno que contrasta com as humildes residências dos arredores. E digo “humilde” porque não sei que outra palavra usar. São casas boas, de alvenaria, bastante grandes, porém que se estendem pelos morros desérticos da paisagem. Nas ruas se vê yaks, porcos, cavalos e muita, mas muita gente com trajes típicos tibetano, quase sempre levando um colar de orações na mão. Eles nos olhavam meio assustados, mas sempre abriam um enorme sorriso quando dizíamos “tashi-delê” (“olá” em tibetano). Muitos achavam que éramos chineses e vinham conversar em chinês conosco. A impressão é que alguns não sabem que existem outros lugares do mundo além de Tibete e China.

Nas ruas, a imposição chinesa é bem forte. Há policiais e exército por todos os cantos, assim como bandeiras chinesas hasteadas por todas as ruas (o irônico é que em outras cidades chinesas quase não vimos a bandeira da China). Soubemos que volta e meia estouram protestos por estes lados. Felizmente visitamos a cidade em uma época de paz.

Ao fundo da cidade há um enorme e belíssimo monastério. A visita é permitida e gratuita. Nós entramos com receio, sem saber se éramos bem-vindos ou não, mas os monges sempre sorriam para nós e nos incentivavam a ir em frente.

Monastério de Litang, Tibete, China
Grande monastério nos fundos de Litang

Ficamos sabendo que nos morros ao redor daquela cidade se pratica o “enterro do céu”. É uma cerimônia religiosa bastante antiga, onde o corpo do defunto é levado para o cume de uma montanha, esquartejado e comido pelos abutres. Tudo acompanhado por monges e conhecidos do morto (dizem que parentes não participam por ser um ritual bastante pesado para eles).

Mas o mais legal foi visitar a casa onde nasceu o sétimo Dalai Lama. Este é um destino de peregrinação, muito frequentado por religiosos. Nós éramos os únicos turistas ali e ficamos com certo receio, mas o povo, sempre sorridente, nos convidou para acompanhá-los. Dentro da casa havia 4 rodas de orações, as quais rodamos 3 vezes cada uma. Depois de ver tanto circo religioso montado unicamente para o turismo no sudeste asiático, ficamos muito contentes de ver algo realmente autêntico.

Viajando pelo Tibete chinês
Casa do sétimo Dalai Lama

Nossa primeira carona pela China

Depois de Litang não sabíamos muito bem para onde ir. Saímos cedinho para tentar carona (desta vez decidimos que só seguiríamos viagem desta forma) e fomos surpreendidos com a neve. Toda a paisagem, desde as ruas até os morros ao redor, estavam brancos. Para caminhar, tínhamos que tomar cuidado para não escorregar. E fazia frio; provavelmente o maior frio de nossa viagem. Nosso termômetro marcava -5 graus, mas acredito que estava bem menos que isso.

Pegando carona na China
Saindo para tentar carona

Caminhamos até a estrada e esticamos o polegar. Não sabíamos bem para onde ir (qualquer destino estaria bom). Marcamos no mapa a cidade de Kangding como referência, mas iríamos para onde nos levassem. Escrevemos no tablet que queríamos viajar de graça e traduzimos para o chinês, pois nesta região muitos carros normais funcionam também como táxis. E imagine se acabássemos pegando um desses por engano: quanto nos custaria uma viagem de algumas centenas de quilômetros em um táxi?

De carona pelo Tibete
Tentando carona em Litang

Aí começava outra dificuldade: poucos habitantes da região falam chinês, e não achamos nenhum tradutor para tibetano. Depois de uns 30 minutos de espera, um primeiro carro parou. O motorista leu o que escrevemos, não entendeu nada e apontou duas notas de 100 yuan (60 reais). Entendemos que este era o preço da “carona”, então agradecemos e o dispensamos.

Uns 20 minutos depois parou outro veículo. Este motorista entendia um pouco de chinês e concordou em nos levar de graça. Mas explicou que só iria viajar mais uns 30 quilômetros, até uma cidadezinha ali perto, e de lá teríamos que conseguir outra carona. Explicou isso em tibetano. Como entendemos? Não sei, mas de alguma forma entendemos.

Viajando pelo Tibete chinês
Um “yak”

A cidade onde ele parou era minúscula e até mais bonita que Litang. Não nos importaríamos se tivéssemos que dormir por ali. Era só jogar nossa barraca em qualquer canto e pronto. E torcer para que nossos sacos de dormir dessem conta do frio.

Mas a segunda carona veio ainda mais fácil. Apenas acenamos para os três primeiros carros que passaram e um deles parou. Este motorista falava chinês, o que facilitou bastante a comunicação. E, com ele, avançamos mais de 300 quilômetros.

Cidades tibetanas
Pequenas cidades que existem pelo caminho

Foi a nossa primeira experiência viajando em uma estrada coberta de neve, e confesso que deu um pouco de medo. O motorista era meio sem noção e corria, mesmo na pista escorregadia. Em uma das curvas ele perdeu a traseira e batemos de frente com uma pedra (ainda bem que rodamos para este lado, pois do outro havia um precipício). Ele saiu, observou o amassado do carro, deu risada e seguimos viagem. Pelo menos depois disso ele tirou um pouco o pé.

Mochilando pelo tibete chinês
Encarando uma viagem pela neve

Quando estávamos perto da cidade onde pretendíamos descer (a última do Tibete) ficamos presos em um engarrafamento. Era um cerro onde vários carros e caminhões empacavam por conta do gelo. E, como todo mundo tentava meter o carro pela contramão ou pelo acostamento, acabou travando tudo. Levamos umas 3 horas para avançar 10 quilômetros.

Por fim chegamos ao que seria o nosso destino. Neste ponto o motorista sugeriu (conversamos sempre usando um tradutor) que fôssemos até a sua cidade. Ele nos convidava para jantar (e, segundo ele, comeríamos o melhor churrasco da China). Para quem estava o dia todo sem comer e jantando apenas miojo há dias, o convite foi tentador. Aceitamos (depois veríamos o que fazer com a hospedagem).

Viajando pelo Tibete chinês
Presos na neve

Chegamos à cidade de Shimian de noite e fomos direto para um restaurante. Achamos que a janta seria em sua casa, com sua família, mas que nada. Aparentemente era uma festa da empresa. Ninguém falava uma palavra de inglês, mas conseguimos nos divertir muito. Comemos e bebemos até quase explodir.

A festa terminou por volta da meia-noite. Agora vinha outro problema: onde nos hospedaríamos? Começamos a buscar hotéis no celular, mas não havia quase nada (esta cidade não é nada turística). Uma moça da festa viu e disse para não nos preocuparmos, pois ela já havia reservado um hotel para nós. Perfeito. Então seguimos com ela de carona até o hotel. Era o hotel mais chique da cidade.

Nosso jantar

Nosso primeiro pensamento foi: “caramba, como vamos pagar por isso?”. Mas, depois de termos viajado, comido e bebido de graça, não nos importamos. E então tal foi nossa surpresa quando a moça nos disse que já estava pago! Insistimos que queríamos pagar, nem que fosse metade do valor, mas ela não aceitou. Disse que queria que nos sentíssemos bem em seu país.

Tem como não se encantar com a China?

E assim, em um hotel de luxo, encerramos um dos capítulos mais bacanas de nossa viagem. De Shimian foi só pegar um ônibus até Chengdu, onde vimos os pandas pela primeira vez. Mas isso fica para outra postagem.

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2 comentários sobre “Mochilando pelo Tibete chinês – sem guia e de carona

  1. Este eh o verdadeiro espirito aventureiro de vgms. Ahi vemos quao eh maravilhoso viajar “mochilando” ( nao eh bem o estilo do casal acredito) ou estou enganado??.Quanto vale 1 yuan p/dolar e real??Abracos!!

    1. Sempre que possível tentamos cair na estrada com o polegar esticado e “sem destino”. Mas fazia tempo que não tínhamos oportunidade de viajar assim (nossa última carona foi no Mianmar).
      1 yuan vale cerca de 60 centavos de real. Esqueci de colocar os valores convertidos no post, vou fazer isso agora.
      Abraço!

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