De Yurimaguas a Iquitos em barco – uma odisséia pelos rios da Amazônia

Sempre sonhou em penetrar na Amazônia selvagem, mas não tem dinheiro para pagar os caríssimos tours pela região? Esta travessia de dois dias de barco é uma forma bem econômica para conhecer o coração da floresta e seus povos, enquanto se delicia com a belíssima paisagem pelo caminho. Venha conhecê-la conosco!

Referência (julho/2016)
1 real = 1 sol peruano
1 dólar = 3,30 soles

Viajando pelo rio Maranhão, rumo a Iquitos
Viajando pelo rio Maranhão, rumo a Iquitos

Quando entramos no Peru, nem fazia parte dos nossos planos conhecer a floresta Amazônica. Sonhávamos, sim, em conhecê-la durante a viagem, mas imaginávamos que este encontro aconteceria somente quando estivéssemos voltando ao Brasil.

No caminho, acabamos desviando um pouco da costa para conhecer Kuelap, uma cidade perdida no começo da selva. Seria isso, nada mais. Até que, ao chegar lá, acabaram nos convencendo a seguir mais adiante, e pegar um barco de dois dias até a remota Iquitos, a maior cidade do mundo sem acesso por estradas. Como não temos roteiro bem definido e nem pressa, acabamos topando a aventura. Não poderíamos ter feito escolha melhor: temos certeza que esta experiência ficará marcada como uma das mais fascinantes da nossa viagem inteira!

A travessia

Há barcos saindo de diversos pontos da selva peruana e seguindo até Iquitos. A nossa viagem foi a partir de Yurimaguas, de onde a viagem dura “apenas” pouco mais que 48 horas.

Este foi o percurso percorrido:

Travessia de Yurimaguas a Iquitos
Travessia de Yurimaguas a Iquitos

Chegar em Yurimaguas já é uma pequena aventura, ainda que seja relativamente fácil alcançar esta cidade por vias terrestres.

Para chegar até lá, fizemos este caminho:

Chiclayo – Chachapoyas (10 horas – 30 soles em ônibus semi-leito)

Chachapoyas – Tarapoto (8 horas – 30 soles em ônibus simples)

Tarapoto – Yurimaguas (3 horas – 20 soles por pessoa em táxi. Depois descobrimos que há vans que levam por 10)

Em Yurimaguas é preciso ir até o porto, que fica uns 2km distante do centro, e lá perguntar sobre barcos até Iquitos. Os dias de saída não são certos, e atrasos de várias horas (ou até dias) são comuns; portanto, não adianta ir com pressa. Se o barco for atrasar, você provavelmente só vai saber depois que o horário de saída passar.

Porto de Yurimaguas
Porto de Yurimaguas

Chegando ao porto, haverá várias embarcações seguindo para Iquitos – algumas com bois, algumas com galinhas, algumas com frutas. Ainda que seja possível viajar em qualquer uma delas, é melhor evitar as que transportam animais, pois o cheiro é insuportável.

Escolhido o barco, compre uma rede, encontre um lugar com uma boa vista e disfrute de dois dias sem fazer absolutamente nada além de contemplar a natureza e os povos indígenas que vivem na região!

Viajando de barco para Iquitos
Dois dias assim… e tem gente que pensa que a nossa vida é fácil

Os serviços

Todos os barcos possuem banheiro com duchas de água fria (água quente não faz falta aqui), camarotes e dois ou três andares para pendurar as redes. A água dos banheiros vem do próprio rio. Todas as refeições estão incluídas durante a travessia.

Ainda que o preço seja o mesmo para qualquer andar, é comum a divisão ficar da seguinte forma: o pessoal da região fica no primeiro andar e os turistas nos pisos superiores. Para o turista, os pisos de cima são melhores pelas vistas, mas não sabemos bem por quê os nativos preferem o primeiro andar (talvez para passar menos frio à noite).

Apesar da grande quantidade de pessoas, os banheiros são limpos e pouco disputados (aparentemente a maioria dos gringos não é muito de tomar banho).

Aproveitando para lavar roupa no banheiro do barco
Aproveitando para lavar roupa no banheiro do barco

O valor

O preço da passagem, para viajar na rede, é de 100 soles por pessoa, com as refeições incluídas. Não sabemos quanto custa o camarote (o pessoal que comprou o camarote acabou preferindo viajar na rede, pois o calor de dia era insuportável).

Além disso, é preciso comprar uma rede. No mercado central de Yurimaguas as redes são vendidas a partir de 20 soles. Se quiser comprar no porto, espere pagar pelo menos uns 50% mais caro. Se não quiser comprar a rede, pode dormir no chão com seu saco de dormir, mas recomendamos a rede para que possa ir relaxando durante toda a viagem.

Um mototáxi até o porto pode custar entre 1 e 3 soles, dependendo de quanta cara de gringo você tiver.

Barco para Iquitos
Turistas ou viajantes frequentes, não importa: todos vão na rede!

O que levar?

  • Repelente – os mosquitos são cruéis a noite.
  • Saco de dormir ou algum cobertor para a noite.
  • Rede e uns 4m corda (para amarrar a rede).
  • Protetor solar (o barco é coberto, mas você vai querer sair para tirar fotos e apreciar a paisagem).
  • Um livro ou qualquer outra coisa para passar o tempo.
  • Muita água (calcule uns 2 litros por dia). Se o barco atrasar, desça e compre mais no porto (o preço ali é o mesmo que no centro).
  • Talheres e algum recipiente para pegar a comida.
  • Frutas e bolachas para o caso de bater uma fome pela tarde.

A nossa viagem

Nós chegamos a Yurimaguas em uma sexta-feira bem cedo, e já pegamos um mototáxi até o porto. Havia três barcos que sairiam para Iquitos no dia seguinte: um carregando frangos, outro carregando vacas e outro levando frutas e outras mercadorias não-perecíveis. Optamos por este último (chamado Gilmer IV), pois o cheiro dos outros não dava para aguentar.

Chegando lá, o capitão nos convidou para entrar e conhecer o barco. Já havia algumas redes penduradas, e descobrimos que era possível ficar hospedado no barco sem problemas mesmo nos dias antes de ele sair. Decidimos fazer isso mesmo para economizar com hotel.

Durante a travessia aproveitei para cortar o cabelo, pois o calor era insuportável!
Durante a travessia aproveitei para cortar o cabelo, pois o calor era insuportável!

Fomos até o centro, compramos nossas redes (20 soles – as mais simples que encontramos), algumas frutas, enlatados e voltamos para o barco. Pegamos um bom lugar no segundo andar, penduramos a rede e passamos a noite ali mesmo. De madrugada, a Michele acordou com um moleque tentando roubar nossos tênis. É bom ficar de olho…

Nosso barco estava previsto para sair às 10h, mas anunciaram que só sairia lá pelas 17h. Aos poucos, o o barco foi enchendo, tanto de estrangeiros quanto de peruanos. Pela tarde ficamos sabendo que a saída só aconteceria no dia seguinte pela madrugada. Amarramos bem nossas coisas e passamos mais uma noite ali.

Para passar o tempo, nada melhor que uma música ao vivo enquanto disfruta de uma vista espetacular!
Para passar o tempo, nada melhor que uma música ao vivo enquanto disfruta de uma vista espetacular!

O barco saiu no domingo, pouco depois das 9h da manhã. A partir daí, foram 2 dias pela selva, onde a nossa noção do tempo só era contada pelos lanches pontuais que eram servidos três vezes ao dia.

Durante o caminho, víamos golfinhos nas águas, diversas espécies de aves nas árvores, um verde infinito e populações indígenas daquelas que só havíamos visto antes no Globo Repórter.

Comunidades na Amazônia
Pequenas comunidades que víamos pelo caminho

De tempos em tempos o barco fazia uma parada para carregar ou descarregar em alguns povoados, mas coisa rápida.

A maior parada foi em Nauta, de onde é possível pegar um ônibus de 2h até Iquitos (10 soles). Quase metade do barco desceu aí. Quem não tem pressa pode seguir de barco mesmo – mais 9 horas e chegamos ao nosso destino.

Desembarcamos na terça, às 11h, depois de quase 50 horas pelas águas do rio Maranhão e Amazonas.

Ao chegar em Iquitos, o barco ainda perde uns 40 minutos na alfândega. Neste momento, algumas canoas encostam e te oferecem a levar ao porto do centro por 2 soles (perto da Plaza de Armas). Pode ser uma boa alternativa.

Se optar por esperar, o barco irá até um porto que está um pouco afastado. A moto de lá ao centro custa 3 soles.

A comida

A comida servida no barco é simples, mas sustenta. É interessante levar umas frutas, bolachas e alguns enlatados para comer durante a tarde.

As refeições eram servidas de forma bem pontual, às 6h45min, às 12h e às 17h30min.

O café-da-manhã era composto por pão e algum tipo de mingau.

O almoço é sempre arroz, que sempre vinha acompanhado por uma carne (geralmente frango) e macarrão ou batatas.

A janta era parecido com o almoço – com exceção de uma noite que foi servido sopa.

É importante levar uma panela ou algum recipiente de plástico e talheres, pois eles não fornecem nada disso.

Jantando no barco para Iquitos
Jantando…

Segurança

É preciso tomar cuidado – e este não é aquele alerta genérico do tipo “cuidado com seus pertences no ônibus”. Aqui é preciso cuidar mesmo. Ainda que o risco de assaltos ou crimes violentos seja remoto, furtos e malandragem são comuns, principalmente enquanto o barco estiver atracado no porto, onde qualquer um pode entrar e sair. Quando estiver em movimento, você pode relaxar um pouco mais – dificilmente haverá um ladrão a bordo.

Quando for dormir, deixe tudo o que tiver ao seu lado, de preferência dentro da mochila. Uma dica é cobrir seus pertences com um plástico – assim, se alguém for mexer, você escutará o barulho.

Belíssimo pôr-do-sol na Amazônia
Belíssimo pôr-do-sol

Durante a travessia, pode ficar mais tranquilo, andando apenas com os seus bens de mais valor. Dificilmente alguém vai desaparecer com sua mochila dentro do barco.

Também tome cuidado com o pessoal no porto que quer te ajudar a levar sua mochila ou prender sua barraca – eles vão cobrar pelo serviço. Um casal de franceses que viajou no nosso barco caiu nessa, achando que o cara era funcionário do barco, e acabaram tendo que pagar 10 soles pela “ajuda”. Mas o problema não parou por aí – eles pagaram com 50 soles e receberam 40 de troco. Mais tarde o ajudante voltou falando que a nota que eles haviam dado era falsa e pediu os 40 dele de volta. Depois de alguma discussão, os franceses acabaram devolvendo o dinheiro. É difícil saber se a nota que eles deram era realmente falsa ou se o cara trocou por uma falsa para arrancar mais dinheiro do casal, mas o fato é que a ajuda acabou custando 50 soles no fim das contas.

Assim conhecemos melhor o dia-a-dia das comunidades que vivem na Amazônia
Assim conhecemos melhor o dia-a-dia das comunidades que vivem na Amazônia

Além deste episódio, teve o cara que tentou roubar nossos tênis pela noite (por sorte havíamos amarrado os cadarços na mochila, e quando ele puxou a Michele escutou o barulho) e o caso de um espanhol que, na parada em Nauta, resolveu ir ao banheiro e quando voltou já haviam levado sua rede. Coincidentemente, não demorou nada e logo apareceu um cara vendendo uma rede nova…

Aproveitando para escrever mais artigos para o blog
Aproveitando para escrever mais artigos para o blog

Dicas

  • Enquanto estiver no porto, algumas mulheres entram vendendo marmitas por 5 ou 6 soles. Podem ser uma boa para quem for passar a noite anterior no barco ou para o caso de o barco atrasar.
  • No fim da tarde, suba ao teto do barco e observe o belíssimo pôr-do-sol e o céu incrivelmente estrelado.
  • Há umas poucas tomadas no barco. Se quiser carregar suas coisas, procure armar a sua rede próximo a elas.
Pequeno vilarejo onde paramos para desembarcar algumas mercadorias
Pequeno vilarejo onde paramos para desembarcar algumas mercadorias

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7 comentários sobre “De Yurimaguas a Iquitos em barco – uma odisséia pelos rios da Amazônia

    1. Valeu rapaz!
      Realmente, tem no Peru, é tão bonita quanto o lado brasileiro e sai bem mais barato para conhecer! Logo mais vamos fazer um post completo sobre como conhecer a selva por estes lados!
      Abs

  1. Olá pessoal. Muito bom o blog e o relato de vcs. Adoro ler seus textos. Queria fazer 3 perguntas:
    1) Vi que teve o episódio do menino tentando pegar o tênis de vcs. Vocês observam mulheres viajando sozinha? Estou indo sozinha e estou sondando quais são os riscos;
    2) Quero fazer Iquitos => Yurimaguas. Vocês sabem se é fácil pegar barcos nesta direção?
    3) Li no relato do café da manhã que eles servem pão e mingau. Vcs viram se eles servem ou têm café?
    Eles têm água quente?
    Por ora é só. Muito obrigada!!!

    1. Olá Sônia! Obrigado!
      Quanto à segurança, vimos mulheres viajando sozinha sim, tanto locais quando estrangeiras. Acho que assaltos ou crimes violentos não acontecem, são mais ladroezinhos que entram enquanto as pessoas estão dormindo mesmo. Tem que ficar de olho quando o barco estiver parado em algum porto (durante a viagem não vimos nenhum roubo acontecer).
      Nós voltamos de Iquitos para Yurimaguas de barco. É fácil sim, geralmente tem 1 saída a cada 2 dias (ou a cada 3, no máximo). Bom dar uma passada no porto uns dias antes para perguntar quando será a próxima saída.
      Não me lembro se serviam café, mas acho que sim. Mas acho que se você pedir para esquentarem uma água pra você eles esquentam sem problemas.

      Boa viagem!!

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