Conhecendo a Tierra del Fuego – que não é apenas Ushuaia!

Este arquipélago no extremo sul do continente americano é dividido pela Argentina e Chile e visitado por milhares de turistas todo ano. Infelizmente, a grande maioria que passa por aqui se limita a conhecer a cidade do Ushuaia, e acaba perdendo varias maravilhas que existem por na região. Nós, na nossa busca por lugares menos turísticos, vamos compartilhar com vocês algumas pérolas do fim do mundo pouco exploradas!

Nossa sorte

Antes de falar sobre a região, queremos contar sobre a sorte que tivemos por aqui. Os custos de hospedagem e transporte por toda esta região são absurdamente caros se comparar com o restante da Argentina (o lado chileno é mais explorado para atividades petroleiras), mas conseguimos passar duas semanas por aqui sem gastar praticamente nada!

Quando estávamos acampados na pequena cidade de Governador Gregores (Argentina) conhecemos Alejandro, que estava viajando e disse que poderíamos ficar em sua casa no Ushuaia enquanto ele não estivesse por lá. Explicou como poderíamos chegar e nos contou onde deixava a chave escondida. E assim foi: chegamos ao local indicado, encontramos as chaves dentro de um vaso e passamos uma semana sem gastar 1 centavo com hospedagem.

Quando íamos para lá, pegamos carona com Gisela em Rio Grande (cidade dentro da Ilha Grande da Terra do Fogo a 200km do Ushuaia) e ela nos convidou a ficar em sua casa quando passássemos ali novamente. E ali passamos mais uma maravilhosa para descansar tando física quanto mentalmente (e aproveitamos para tomar todas também!).

Um pouco de história:

Mapa Tierra del Fuego
Mapa da Terra do Fogo, no extremo sul do continente americano.

Composto por uma ilha grande principal e várias ilhotas ao seu redor, a Terra do Fogo está no extremo sul das américas. Aí estão as cidades mais ao sul do planeta, é de onde partem as principais expedições à Antártida e também foi o último local da Terra a ser ocupado pelo homem (por volta de 8000 a.C.).

Estas terras foram descobertas pelo ocidente no ano de 1520, quando o navegador português Fernão de Magalhães e sua tripulação buscavam um novo caminho para as Índias que não precisasse contornar a África. Este taria batizado a região com o nome de “Terra do Fogo” por conta das inúmeras fogueiras feitas pelos nativos que se viam em meio à névoa.

Mapa de Magalhães
Mapa que Magalhães teria usado para sua viagem. Note que pouco se conhecia do sul das américas ou de ligações entre o Atlântico e o Pacífico.

A viagem de Magalhães teria sido um sucesso, pelo menos até aqui: o suposto canal que ligava os oceanos Atlântico e Pacífico existia mesmo, e foi batizado com seu nome. A partir de então, esta foi a principal rota de navegação entre os dois oceanos até 1914, quando finalmente o Canal do Panamá ficaria pronto.

viagem de magalhaes
Rota da viagem de Magalhães.

Apesar da importância para a navegação, as ilhas não chamaram tanto a atenção dos ocidentais em princípio, e os grupos nativos da região (Yaghan e Salk’nam) puderam seguir vivendo em relativa paz. Em meados do século XIX, missões anglicanas começaram a ser instaladas na ilha principal com o objetivo de catequisar estes nativos.

No fim do século XIX e começo do século XX, alguns expedicionários descobriram ouro na região, o que provocou uma corrida pelo ouro e resultou no total extermínio dos povos nativos. Dizem que os grandes proprietários pagavam até 1 libra por nativo morto, ou davam um pedaço de terra para quem ajudasse na matança. Hoje passamos por aqui, vemos as grandes instâncias de vários hectares e imaginamos a custa de quanto sangue essas famílias enriqueceram…

Hoje, quase nada da população Yaghan ou Salk’nam restou. Os poucos sobreviventes fugiram para outras regiões do Chile e da Argentina, e sua cultura já se perdeu em meio ao modernismo ocidental.

Essa corrida pelo ouro teria durado até o fim do século XIX, e teria resultado na fundação das principais cidades da região, como Usuaia, Rio Grande e Porvenir.

Alguns Pontos de Interesse

Vamos deixar o Ushuaia de fora neste post. Não queremos diminuir a importância da cidade, que realmente vale a pena ser visitada, mas sim explorar lugares pouco visitados. Talvez numa próxima oportunidade faremos um post exclusivo para lá 🙂

-Río Grande

Cidade localizada a cerca de 200km do Ushuaia, é geralmente visitada por turistas que querem encher o tanque de seus carros ou motos ou que estão cansados e querem descansar uma noite antes de seguir ao Ushuaia. Nós mesmos só sabíamos da existência desta cidade por conta de um pequeno ponto marcado no nosso mapa, e não tínhamos a menor intenção de parar ali. Por sorte, Gisela nos fez mudar de ideia.

Memorial à Guerra das Malvinas, em Rio Grande, Terra do Fogo
Memorial aos soldados mortos na Guerra das Malvinas, em Rio Grande.

Esta cidade não vive em função do turismo, mas sim da indústria. Desta forma, seus museus e principais atrações são gratuitas, muito diferente do Ushuaia, onde tudo é caríssimo. As hospedagens também são mais baratas, embora haja pouca oferta de hostels. Restaurantes então, nem se fala.

Reserva Natural de Rio Grande, Tierra del Fuego
Pássaros na Reserva Natural de Rio Grande

Quem passar por aqui, deve visitar o Memorial às Ilhas Malvinas (Rio Grande foi a principal cidade de apoio na Guerra das Malvinas), o antigo frigorífico (localizado no “casco antigo”, parte antiga da cidade que impressiona pela quantidade de edificações abandonadas) e, para quem gosta de observar pássaros, a Reserva Natural.

Frigorífico abandonado em Rio Grande
Velho frigorífico abandonado na cidade de Rio Grande.

Outros locais de interesse estão a poucos quilômetros da cidade, e mencionamos abaixo.

Cabo Domingo

Localizado a cerca de 15km de Río Grande, pela mesma estrada que leva ao Ushuaia (ruta 3), é um pequeno cerro (com 90m de altura) de onde se tem uma boa vista do mar e da planície ao redor. Lá em cima está instalado um velho farol.

É possível chegar ao cume por uma curta caminhada.

Cabo Domingo, na Terra do Fogo
Visão que se tem de cima do morro do Cabo Domingo

Este lugar tem uma importância histórica por ter sido palco de uma das maiores matanças de nativos na região. Na praia que o bordeia, Alejandro Maclennan, administrador da estância de José Menéndez, teria cometido o que futuramente ficou conhecido como “O Massacre da Praia de Santo Domingo”.

Com a desculpa de selar um acordo de paz, Alejandro teria dado um grande banquete e convidado a numerosa tribo de Salk’nams. Durante este jantar, servia grandes quantidades de vinho. Assim que comprovou que a maioria dos nativos estavam embriagados, ele se afasta e ordena a seus ajudantes, localizados no monte, a abrir fogo. Em torno de 300 a 400 índios foram assassinados nesta ocasião.

Também se conta que, do alto do Cabo Domingo, indígenas eram arremessados por pessoas que vinham atrás de recompensa. Antes, suas orelhas eram cortadas como forma de provar o assassinato.

Por conta da grande quantidade de mortes no local, há a crença que ali corre uma energia muito forte. Por isso, na base do morro se vê uma enorme quantidade de santuários, com oferendas para santos das mais diferentes crenças.

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Vários santuários colocados à base do Cabo Domingo

Missão Salesiana

A pouco mais de 2km do Cabo Domingo, pela ruta nacional 3, está a Missão Salesiana Nossa Senhora da Candelária, uma escola fundada em 1897 pela congregação Don Bosco para catequizar os índios da região.

Missão salesiana em Rio Grande.
Missão salesiana em Rio Grande.

Atualmente funciona como uma escola agrotécnica, mas se pode visitar a capela e um museu que conta um pouco da história do local (que infelizmente não funciona nos domingos, justamente o dia que fomos visitá-la).

Em frente à missão há um velho cemitério abandonado, que funcionou até meados do século XX. O caminho até ele é fechado, mas se pode pular a pequena cerca e entrar sem problemas.

Cemitério abandonado em Río Grande
Velho cemitério abandonado em frente às Missões

Cabo San Pablo

Para chegar até aqui é preciso sair da Ruta Nacional 3 e pegar uma pequena estrada, que parte de um ponto entre Rio Grande e Ushuaia. Apesar de fora de mão, vale a pena a visita.

Ali está encalhada a famosa desdémona de San Pablo, uma grande embarcação abandonada. Quando o mar está baixo, é possível até mesmo entrar nela.

Cabo San Pablo, Terra do Fogo
Navio encalhado no Cabo San Pablo

Supostamente, o “acidente” foi proposital: apenas um golpe da companhia de navegação para receber dinheiro do seguro. Junto com a embarcação, morreram algumas toneladas de cimento que estavam sendo transportadas.

Capela da Defunta Correa

A marca da religião na Terra do Fogo é forte. Há poucos quilômetros de Rio Grande, sentido Ushuaia (logo após uma velha ponte abandonada) está uma capela à Difunta Correa, mais uma das santas milagrosas argentinas.

Leoninda Correa teria morrido na década de 1840, na região de San Juan, enquanto tentava cruzar o deserto com seu bebê recém-nascido nos braços. Segundo a lenda, ela estava indo atrás de seu marido, soldado argentino que havia sido recrutado para a guerra. Durante o caminho, seus suplementos de água acabaram e ela morreu de sede. Seu corpo teria sido encontrado somente uma semana depois, e seu filho continuava vivo. Supostamente, se alimentava do leite que sua mãe continuou a produzir mesmo depois de morta.

É costume de seus devotos levarem garrafas de água a seu santuário.

Santuário à Difunta Correa em Río Grande
Santuário à Difunta Correa. Detalhe na enorme quantidade de água que são oferecidas à santa.

E estes foram os locais que tivemos a oportunidade de conhecer neste maravilhoso local. Conhecem outros lugares legais? Deixe aí a dica! 🙂

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5 comentários sobre “Conhecendo a Tierra del Fuego – que não é apenas Ushuaia!

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