Ayahuasca – minha experiência tomando o Santo Daime

Droga alucinógena ou bebida medicinal para curar a alma? Falar sobre este tema gera muita polêmica e divide opiniões. Como faz parte da cultura amazônica, tive que experimentar. Aqui compartilho com vocês como foi a experiência!

Referência (julho/2016)
1 real = 1 sol peruano
1 dólar = 3,30 soles

A Ayahuasca

Os nomes populares são vários: hoasca, iagê, santo daime, variri… não importa qual seja, você provavelmente já ouviu falar desta polêmica bebida. No Brasil, seu consumo só é permitido em rituais religiosos e curativos. No Peru, principalmente na região da selva amazônica, é possível comprar seus ingredientes, inclusive o cipó que leva o mesmo nome, nas feiras populares.

Não se sabe ao certo quando a Ayahuasca começou a ser utilizada, mas alguns estimam que seu primeiro uso em rituais data de mais de 5 mil anos atrás.

Sobre seu uso, as discussões são grandes: do ponto de vista científico, a ayahuasca é considerada um alucinógeno. Antropólogos e grupos religiosos, porém, preferem adotar o termo “eteógeno” que, traduzindo do grego, significa algo como “gerador da divindade interna”. Estes atribuem à bebida poderes curativos, tanto do corpo quanto da alma, quando consumida da maneira correta.

Seja lá como for, a decisão de experimentar ou não é muito pessoal, e deve ser tomada após muita reflexão. No nosso caso, a Michele preferiu ficar de fora (mas participou do ritual), mas eu quis viver a experiência.

Não queremos incentivar nem desincentivar ninguém a tomar a ayahuasca – descrevo aqui como foi a minha experiência, para que você mesmo possa decidir!

Os riscos

Antes de falar da experiência, quero contar dos riscos. Infelizmente, o uso da Ayahuasca virou uma grande atração turística no Peru. Conhecemos muitos turistas indo para Iquitos com o objetivo de tomar a ayahuasca unicamente para “ficar doidão”, com a ideia de tomar uma droga sem que a polícia incomode. Se for este o seu objetivo, melhor ficar de fora.

Este tipo de turista criou uma verdadeira máfia da Ayahuasca em Iquitos: há centenas de falsos xamãs que vão simular um ritual para que você simplesmente fique “chapado”. O problema é que os efeitos da ayahuasca variam muito de pessoa para pessoa, e também com o seu estado de espírito, e pode ser que você simplesmente não sinta nada. Nestes casos, para que a pessoa não reclame que “pagou para ficar chapado e não ficou”, o xamã simplesmente aplica mais doses ou adiciona outras substâncias alucinógenas à bebida. Casos de falecimento ou de pessoas que nunca mais voltaram da “viagem” não são raros. Tome cuidado.

A minha experiência

Ficamos sabendo da Ayahuasca ainda em Cusco, quando conversamos com um italiano que estava seguindo para Iquitos com o objetivo de experimentá-la. Na época não demos muita importância, pois ir para a selva não estava em nossos planos.

Quando estávamos no barco para Iquitos, ouvimos novamente o nome da bebida. Comecei a considerar a hipótese de experimentá-la, mas não iria atrás. Se surgisse a oportunidade, quem sabe…

Até que, quando estávamos fazendo um tour na selva com a Selva Aventura (http://www.selvaventuraiquitos.com), ficamos sabendo que, no povoado ali perto, havia um xamã que aplicava a Ayahuasca. Conversamos com um casal de americanos que havia feito o ritual e eles falaram muito bem do xamã. O ritual custava 100 soles, e eu resolvi encará-lo.

Às 18h o jantar foi servido, mas o xamã recomendou que eu não jantasse, pois isso poderia causar enjoos. Apesar da fome, resolvi aceitar o conselho.

Às 21h fomos para a pequena casa de madeira onde seria feito o ritual. Tomaríamos a ayahuasca eu, o nosso guia e o americano (ele estava em sua quarta sessão). A Michele não iria tomar, mas permitiram que ela acompanhasse tudo.

Sando Daime
Itens usados pelo xamã para o ritual da Ayahuasca

A pequena casa do xamã era escura, iluminada apenas por sua lanterna. Nós nos sentamos em um pequeno colchonete e esperamos. Ele organizou suas coisas no chão (uma estátua do Santo Antônio, um maço de ramos, alguns cigarros caseiros e o famoso Santo Daime) e começou a cantarolar uma canção. Depois, se levantou e foi cantar do lado de fora da casa (mais tarde soubemos que isso era para espantar maus espíritos). Quando voltou, acendeu um cigarro, tragou e, com a mão em forma de cone, baforou a fumaça na cabeça de cada um de nós. Voltou para seu canto, encheu uma cumbuca com ayahuasca, cantou mais um pouco, baforou mais fumaça do cigarro ali dentro e serviu o americano, que tomou tudo em um gole só. Repetiu o ritual e serviu o nosso guia. Então foi a minha vez: tomei tudo, com dificuldade. O gosto era horrível, amargo, e depois ficava uma sensação de que havia algo picando minha boca e garganta. Tomei um pouco de água e aliviou um pouco.

O xamã deu um balde para cada um de nós e nos instruiu a vomitar assim que começássemos a sentir ânsia. Depois, ele mesmo tomou a sua dose, apagou a luz e voltou a cantar.

Nos primeiros minutos não senti nada. Aos poucos, porém, minha mente, embalada pela cantoria do xamã, começou a viajar por imagens abstratas (se eu fosse um pintor, poderia reproduzir belos quadros daquelas imagens), e meu corpo começou a formigar.

No começo os pensamentos ainda eram muito fracos, e qualquer ruído me trazia de volta à realidade. Mas, com o passar do tempo, esta transição foi ficando mais difícil. Comecei a escutar um zumbido, e a voz do xamã começou a ecoar, dando a impressão de ser cantada por várias pessoas. Se não fosse a simplicidade do local (e a Michele como testemunha) poderia jurar que havia alto-falantes naquela sala.

As imagens vinham cada vez mais nítidas, e as distrações agora já não me incomodavam mais. A viagem foi legal, até que os pensamentos começaram a ficar turbulentos. Era meu organismo me lembrando que precisava pôr a ayahuasca para fora. Com certo esforço, voltei para o mundo real, levantei e vomitei. Aí me dei conta de que meu corpo todo estava formigando. Olhei para a parede e via raios correndo por ali. As alucinações visuais também estavam fortes.

Vomitar a ayahuasca foi sofrido: aquele líquido correndo novamente pela minha garganta trouxe de novo aquela sensação de algo picando. Escutei que as outras pessoas também vomitavam.

Deitei novamente e fui viajar mais um pouco. A partir daqui, porém, o a coisa já não foi mais a mesma. Ainda sentia meu estômago se revirando, e levantei mais algumas vezes para vomitar. O xamã seguia sua cantoria.

E segui assim, entre imagens abstratas e o balde ao meu lado. Cada vez que voltava ao mundo real, a sensação era péssima. A tontura e o enjoo eram cada vez mais fortes.

Por volta da meia-noite, o xamã se levantou para encerrar o ritual. Escutei o meu nome e logo me despertei. Vi que o pessoal se punha sentado, e me sentei também. O enjoo veio mais forte do que nunca, e vomitei o resto da ayahuasca que ainda tinha no estômago.

O xamã passou em cada um de nós e bateu com a muda de folhas em nossa cabeça enquanto seguia cantarolando. Depois, nos benzeu com alguma coisa e encerrou de vez o ritual. Arranjou alguns travesseiros, lençóis e disse que poderíamos dormir ali mesmo. A Michele se deitou comigo, curiosa, mas eu não estava em condições de conversar.

Acordamos por volta das 5h. Eu ainda estava um pouco zonzo, mas o enjoo e as alucinações já haviam passado. Depois de um banho gelado e um bom café-da-manhã, já estava pronto para encarar as trilhas da Amazônia!

Conclusão

Os efeitos da ayahuasca variam muito conforme a pessoa. O que senti aqui pode ser completamente diferente do que você sentiria.

Sobre a minha experiência, posso dizer que fico feliz de ter vivido isso, mas não creio que faria de novo. Ainda que as visões tenham sido interessantes (não encontrei nenhuma das “respostas” que o pessoal procura, mas ainda assim valeu), o enjoo que acompanha o santo daime é muito pesado. Depois que vomitei pela primeira vez, tudo aquilo perdeu a graça, e eu fiquei somente esperando o ritual acabar. Foi mais ou menos como quando você bebe demais: o mal estar te impede de curtir.

Sobre o caráter curativo da planta, ainda é cedo para dizer. Quem sabe, em alguns meses, eu escreva um novo post falando sobre o assunto. Por enquanto, deixo somente os relatos desta viagem impressionante!

 

É isso pessoal! Espero que este relato tenha ajudado a aclarar um pouco as ideias de quem pensa em experimentar a ayahuasca e ainda tem dúvidas, ou sido útil para quem simplesmente tenha curiosidade sobre o assunto.

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10 comentários sobre “Ayahuasca – minha experiência tomando o Santo Daime

  1. Mas creio que não seria bem essa a palavra, já que PISCOSIDADE significa: característica do que é piscoso; qualidade do que possui uma grande quantidade de peixes: a piscosidade de uma região marítima. Acredito que vc tenha querido dizer: VISCOSIDADE (oque é viscoso ou pegajoso).
    Boa viagem 🙂

    1. Não sei que palavra poderia usar, mas quis dizer que era algo que picava, como se tivesse pequenos espinhos na bebida mesmo. Não conheço nenhuma palavra para isso, aí usei do neologismo mesmo 🙂

    1. Eu não cheguei a participar. Se pedir acho que ele deixa, o problema é que, pelo que disseram, precisa cozinhar o cipó por 8 horas. Mas, se tiver tempo sobrando, acho que pode acompanhar sim 🙂

  2. Caraca! Muito legal ler seu relato… Tenho muita curiosidade em participar do ritual, pois realmente acredito nos poderes do Ayahuasca, quem sabe não rola uma oportunidade por ai? E obrigada por alertar sobre falsos chás vendidos por ai, realmente não da pra confiar em qualquer um. Beijos e boa trip

    1. Olá Kamille! Muito obrigado!
      Realmente, um dia a oportunidade aparece! Quem sabe você não tira umas férias em Iquitos? (não só pela Ayahuasca, mas a cidade em si é muito legal).
      Vindo com essa ideia em mente (de experimentar porque acredita na planta) você não terá dificuldades em encontrar um bom xamã. O problema é o pessoal que vem procurando usar uma droga mesmo… aí vão buscar quem prepara o chá mais forte e dá no que dá.
      Beijos e boas trips para você também!

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